A Tale of Two Cities: Kit Harington reencontra o herói romântico

Atenção para SPOILERS do livro

“It was the best of times, it was the worst of times.” Poucas frases de abertura na literatura são tão reconhecíveis quanto a que Charles Dickens escreveu em 1859 para A Tale of Two Cities. Mais de 160 anos depois, ela também ajuda a apresentar a nova adaptação do clássico, que chega à MGM+ em setembro com Kit Harington como Sydney Carton.

O casting é mais interessante do que simplesmente recrutar o eterno Jon Snow novamente para um épico de época. Desde o fim de Game of Thrones, Harington tem feito um esforço bastante consciente para se afastar do tipo de herói que o tornou famoso. Jon Snow era íntegro, idealista e quase definido pela obrigação de fazer a coisa certa. O ator já falou mais de uma vez sobre o peso de viver, por tantos anos, um personagem tão moralmente correto e, depois da série da HBO, passou a buscar homens muito mais falhos.

Seu Sir Henry Muck em Industry talvez seja o melhor exemplo dessa mudança. Privilegiado, instável, egocêntrico, manipulador e frequentemente difícil de defender, Henry está quase no extremo oposto de Jon Snow. Harington também procurou personagens mais sombrios no cinema, incluindo Blood for Dust, no qual interpreta um criminoso e traficante de armas.

Por isso, Sydney Carton é uma escolha tão curiosa. Harington está, sim, voltando ao terreno do herói romântico, mas Dickens oferece uma versão muito menos confortável desse arquétipo.

Quem é Sydney Carton em A Tale of Two Cities?

Antes de continuar, entremos nos spoilers. E, neste caso, estamos falando de spoilers de um livro publicado em 1859, mas ainda assim spoilers bastante importantes para quem pretende chegar à nova série sem saber como tudo termina.

A Tale of Two Cities se passa entre Londres e Paris nos anos que antecedem e atravessam a Revolução Francesa. No centro da história está Lucie Manette, uma jovem que descobre que o pai que acreditava morto continua vivo. O médico Alexandre Manette passou 18 anos injustamente preso na Bastilha e saiu de lá profundamente traumatizado. Lucie consegue levá-lo de volta para Londres e, pouco a pouco, também de volta à vida.

É nesse universo que surgem Charles Darnay e Sydney Carton, dois homens fisicamente muito parecidos, mas aparentemente muito diferentes em quase todo o resto. Darnay é um aristocrata francês que rejeita a própria família e os privilégios associados a ela. Ele pertence aos Évrémonde, cuja violência contra os camponeses representa justamente o sistema de exploração que ajudará a alimentar a Revolução. Darnay abandona sua posição, vai para a Inglaterra e se apaixona por Lucie.

Sydney também se apaixona por ela.

Mas Sydney Carton está longe de ser um herói convencional. É um advogado brilhante que desperdiça o próprio talento, bebe demais, vive desencantado e parece ter desistido de si mesmo muito antes de a história começar. Ama Lucie sabendo que dificilmente será escolhido por ela e, quando finalmente declara esse amor, promete que fará qualquer coisa por ela ou por alguém que ela amasse.

Dickens guarda essa promessa para muito depois.

O triângulo amoroso que termina na guilhotina

Lucie se casa com Darnay e a Revolução Francesa transforma o que parecia um melodrama romântico em algo muito maior. Darnay retorna à França e acaba preso. Sua tentativa de se separar dos crimes cometidos pelos Évrémonde deixa de importar diante de uma revolução que começa cobrando responsabilidade da aristocracia e termina frequentemente confundindo justiça com vingança.

Condenado à guilhotina, Darnay parece não ter saída. É então que a semelhança física entre os dois homens, estabelecida por Dickens desde o início do romance, finalmente revela sua função.

Sydney entra na prisão, droga Darnay, troca de lugar com ele e permite que o rival escape para reencontrar Lucie e a família. Carton permanece na cela sabendo exatamente o que acontecerá com ele. Na manhã seguinte, vai para a guilhotina no lugar de Darnay.

É por isso que reduzir A Tale of Two Cities a um triângulo amoroso seria um erro, mesmo que a nova adaptação explore bastante essa dinâmica. A história de Sydney não é simplesmente sobre amar uma mulher que escolheu outro homem. Seu verdadeiro arco é o da redenção.

Ele passa boa parte do livro convencido de que sua própria vida não vale grande coisa. Ao salvar Darnay, salva também Lucie, os filhos dela e um futuro do qual aceita voluntariamente não participar. O homem que acredita ter desperdiçado a própria existência encontra, no último momento possível, uma maneira de dar sentido a ela.

É daí que vem outra das frases mais famosas de Dickens. Perto do final, Sydney pensa que aquilo que está fazendo é algo muito melhor do que tudo o que havia feito antes. A célebre frase “It is a far, far better thing that I do, than I have ever done” ficou inseparável do personagem e do romance.

De Jon Snow a homens muito mais difíceis

É justamente aí que Kit Harington se transforma numa escolha tão interessante para Sydney.

Durante oito temporadas de Game of Thrones, Jon Snow fazia a coisa certa porque praticamente não sabia agir de outra maneira. Seu senso de dever era sua maior qualidade e, muitas vezes, também seu problema. Ele se sacrificava pelos outros porque entendia que era isso que um homem honrado deveria fazer.

Sydney parte do extremo oposto. Quando o conhecemos, não parece acreditar em dever, destino ou sequer nele mesmo. Não é o homem bom tentando preservar sua bondade diante de um mundo corrupto. É um homem destruído que descobre, tarde demais e exatamente a tempo, que ainda é capaz de fazer algo extraordinariamente bom.

Harington passou os últimos anos procurando justamente personagens assim. Em Industry, Sir Henry Muck usa charme, privilégio, vulnerabilidade e manipulação quase simultaneamente. Em Blood for Dust, o ator abraçou um personagem criminoso e moralmente muito distante do idealismo que marcou sua imagem pública durante tanto tempo.

Sydney Carton, portanto, talvez seja menos uma volta atrás do que uma síntese.

Ele permite que Kit Harington volte ao heroísmo sem abandonar os homens falhos que passou a procurar depois de Game of Thrones. O ator reencontra o sacrifício, o amor impossível, a honra e até uma morte memorável, mas chega a tudo isso através do alcoolismo, da frustração, do autodesprezo e da sensação de uma vida inteira desperdiçada.

A Tale of Two Cities já teve muitas adaptações

Harington também entra em uma longa tradição de atores que viveram Sydney Carton. A Tale of Two Cities começou a chegar às telas ainda nos primeiros anos do cinema e ganhou inúmeras adaptações ao longo do século 20.

Entre as mais conhecidas está a versão hollywoodiana de 1935, dirigida por Jack Conway e estrelada por Ronald Colman como Sydney. Em 1958, Dirk Bogarde assumiu o papel numa produção britânica. A BBC também voltou várias vezes ao romance na televisão, incluindo adaptações realizadas em diferentes décadas.

A nova produção da MGM+ tem quatro episódios, com Mirren Mack como Lucie Manette e François Civil como Charles Darnay. Kit Harington não apenas interpreta Sydney como também participa da produção executiva.

Para quem conhece o livro, existe um elemento inevitável de antecipação em vê-lo no trailer. Sabemos para onde Sydney está caminhando. Cada gesto de desencanto, cada aproximação de Lucie e cada imagem do triângulo entre os três personagens já carregam o peso de uma decisão que só será tomada no final.

O herói que Kit Harington pode interpretar agora

Existe ainda uma ironia difícil de ignorar para quem acompanhou Harington durante tantos anos como Jon Snow. Jon morreu e ressuscitou para continuar sendo herói. Sydney Carton passa boa parte da vida quase morto por dentro e precisa morrer para finalmente descobrir que também pode ser um. A diferença é essencial. Jon sempre soube quem gostaria de ser. Sydney acredita durante quase todo o romance que já perdeu essa possibilidade.

Talvez seja justamente por isso que A Tale of Two Cities seja uma escolha tão interessante para Kit Harington neste momento de sua carreira. Depois de passar anos fugindo deliberadamente do homem idealista e moralmente correto que o tornou famoso, ele não está simplesmente voltando ao herói romântico.

Está escolhendo um herói que primeiro precisa fracassar, se destruir e desistir de si mesmo. Só então ele faz a coisa certa, e, paga por ela com a própria vida, mas, longe de Westeros, não há ressurreições mágicas.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário