Quem é Troy em Silo? O personagem que prepara o final da temporada

Este texto discute acontecimentos dos livros de Hugh Howey e, portanto, contém spoilers importantes sobre o possível futuro da série.

O último episódio da terceira temporada de Silo tem um título que, à primeira vista, não faz sentido. “Troy” estreia em 4 de setembro e a Apple resumiu sua história em uma única frase: “Um líder desperta para um novo mundo”. O detalhe é que passamos nove episódios sem conhecer ninguém chamado Troy. Ou talvez tenhamos passado a temporada inteira olhando para ele.

Quem leu Shift, segundo volume da trilogia de Hugh Howey, sabe que Troy é uma das peças mais importantes do quebra-cabeça de Silo. No livro, ele desperta no Silo 1 para cumprir um turno de supervisão sobre os outros silos. Aos poucos, porém, percebe que as lembranças que possui — ou, melhor dizendo, as que lhe faltam — escondem algo fundamental: Troy não é quem acredita ser. Seu verdadeiro nome é Donald Keene.

Na adaptação da Apple, Donald virou Daniel Keene, interpretado por Ashley Zukerman. E Zukerman pode parecer imediatamente familiar mesmo para quem não consegue lembrar de onde o conhece. Antes de Silo, ele foi Nate Sofrelli em Succession, o estrategista político e ex-namorado de Shiv Roy, personagem de Sarah Snook, com quem ela retoma um caso enquanto está envolvida com Tom. É um daqueles rostos que muita gente reconhece antes de necessariamente lembrar o nome do ator.

Depois de uma temporada inteira mostrando Daniel cada vez mais desconfiado do projeto que ajudou involuntariamente a construir, a pergunta do finale talvez não seja exatamente “quem é Troy?”, mas algo bem mais perturbador: o que precisa acontecer com Daniel para que ele acorde acreditando ser Troy?

Essa é uma das ideias mais sombrias de Shift. O Silo 1 não funciona como os demais. Seus administradores são mantidos em suspensão e despertados periodicamente para trabalhar, permitindo que a mesma estrutura de comando atravesse décadas e séculos. Mas preservar o corpo não basta. Um homem que se lembra do mundo anterior também pode lembrar quem construiu aquele sistema, por que ele foi criado e o que perdeu quando as portas se fecharam. É preciso, portanto, controlar também a pessoa que desperta dentro daquele corpo.

No livro, Troy vive cercado por homens igualmente separados de suas identidades anteriores. Medicamentos, isolamento, criogenia, rotina e vigilância ajudam a manter essa nova realidade. Quando alguém começa a insistir que possui outro nome ou outra vida, sua memória passa a ser tratada como instabilidade. Ele é retirado do turno e colocado novamente para dormir. Troy acaba seguindo exatamente esse caminho quando suas próprias lembranças começam a voltar.

É difícil olhar para tudo o que a terceira temporada mostrou sobre memória e não perceber a preparação para isso. Juliette passou boa parte da história tentando recuperar a própria identidade depois de sofrer interferências em suas lembranças. Charlotte esteve diretamente ligada às experiências que mostraram até onde esse controle pode chegar. Daniel, por outro lado, termina o penúltimo episódio sendo levado justamente para o lugar onde o conhecimento mais perigoso precisa ser preservado — mas seus portadores precisam ser controlados.

A simetria seria cruelmente perfeita. Juliette passou a temporada recuperando Juliette. Daniel pode terminá-la perdendo Daniel.

Charlotte também parece cada vez menos uma trama paralela. Nos livros, a irmã de Donald é preservada dentro do Silo 1 e, séculos depois, é acordada clandestinamente por ele. Sua experiência militar e sua familiaridade com drones tornam-se fundamentais quando os dois começam a investigar se tudo o que aprenderam sobre o mundo exterior é realmente verdade. A série fez questão de conservar justamente essas características em Charlotte, o que dificilmente parece casual.

O episódio 9 ainda deixou uma pista particularmente inquietante. Daniel tenta confirmar se realmente está falando com a irmã por meio de uma piada interna. A resposta vem errada. Alguém pode estar controlando Charlotte, usando seu telefone ou simplesmente impedindo Daniel de descobrir onde ela está. Isso abre uma possibilidade importante: Charlotte talvez já esteja sendo preparada para permanecer no Silo 1 quando Daniel chegar.

Helen representa uma perda diferente. Nos livros, Donald passa décadas — embora, para ele, o tempo seja fragmentado pelos longos períodos de suspensão — tentando descobrir o que aconteceu com a mulher de quem foi separado quando o mundo terminou. Helen viveu. Envelheceu, formou outra família e morreu enquanto Donald continuava existindo entre despertares e apagamentos. Ela teve uma vida. Ele foi privado da própria.

A série alterou essa história de maneira decisiva. Helen está grávida e foi destinada ao Silo 18. E é aí que um pequeno objeto aparentemente banal começa a ganhar uma importância muito maior.

Desde o início, Silo nos ensinou a chamar objetos do passado de relíquias, mas poucas atravessaram a série com tanta insistência quanto o dispensador de PEZ. Daniel o compra para Helen no mundo anterior aos silos. Séculos depois, aquele mesmo objeto está nas mãos de George e chega até Juliette.

O PEZ sobrevive quando quase tudo o que poderia contar alguma coisa sobre o mundo anterior foi proibido, escondido ou destruído. E a terceira temporada deu ao objeto uma função ainda mais poderosa: ele não apenas representa memória. Ele ajuda Juliette a recuperar a memória. Algo que deveria ser irrelevante torna-se exatamente aquilo que o sistema não consegue controlar por completo. Os silos apagam. O PEZ lembra.

Se Helen realmente entrar no Silo 18 carregando aquele objeto, o finale pode finalmente começar a explicar como algo que pertenceu a Daniel e Helen atravessou centenas de anos até chegar a George e Juliette. Isso não significa necessariamente que George seja descendente direto de Helen — a série ainda não estabeleceu isso —, mas o fato de Helen estar grávida torna difícil ignorar a possibilidade de que não estejamos acompanhando apenas a sobrevivência de uma relíquia, e sim uma cadeia de pessoas que preservou, conscientemente ou não, fragmentos do mundo anterior.

Daniel talvez não consiga carregar suas lembranças até o futuro. O PEZ consegue.

Há ainda uma ironia especialmente bonita no próprio nome Troy. Nos livros, a escolha remete a Helen. Helen of Troy. O nome criado para separar Donald de sua vida anterior carrega justamente uma referência à mulher que ele deveria esquecer. Se a série mantiver esse detalhe, Troy deixa de ser apenas uma identidade falsa e passa a ser também uma pequena falha no sistema: mesmo quando Daniel deixa de saber que é Daniel, alguma coisa de Helen permanece.

Isso também ajuda a entender por que a temporada final ainda precisa dele. Shift começa apresentando Donald no passado e Troy no futuro como se fossem dois homens diferentes. Aos poucos, as histórias convergem. E a trajetória de Donald não termina quando ele se transforma em Troy. É justamente quando começa a se recuperar quem era que ele passa a compreender o sistema do Silo 1 por dentro e percebe que nem mesmo aqueles que o administram conhecem toda a verdade.

É esse caminho que eventualmente permite que Donald e Juliette entrem na mesma história. Eles pertencem a épocas separadas por séculos, mas a criogenia do Silo 1 elimina essa distância. A terceira temporada foi ao passado para explicar como os silos nasceram. A quarta não precisa mais perguntar como aquele mundo surgiu. Precisa descobrir como destruí-lo.

Juliette conhece o sistema a partir de dentro dos silos e o desafia de baixo para cima. Daniel pode acabar conhecendo a arquitetura completa por trás de tudo. Charlotte talvez seja a ponte entre os dois.

Por isso “Troy” pode ser um título muito maior do que parece. O sistema talvez consiga transformar Daniel em outra pessoa, colocá-lo para dormir e apagar as pessoas que fizeram dele quem era. Mas Silo vem repetindo há três temporadas que a memória sempre encontra algum lugar para sobreviver.

Às vezes em uma pessoa. Às vezes em um livro. Às vezes em um nome. E, aparentemente, às vezes dentro de um velho dispensador de PEZ.


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