Chegamos ao final de The Shards e confesso que minha relação complicada com a série não melhorou muito. Depois de nove episódios de excessos, performances frequentemente exageradas, uma trilha sonora oitentista quase usada como muleta e uma história que foi ficando mais camp (brega) a cada semana, eu esperava que pelo menos o último episódio amarrasse alguma coisa. Não aconteceu. Ao contrário, Stairway to Heaven termina abrindo ainda mais perguntas e confirmando algo que já vinha ficando evidente: esta não é mais exatamente a história que Bret Easton Ellis escreveu.
O episódio começa pelo fim, com Terry Schaffer caindo do andar superior de sua casa durante uma festa e atravessando uma mesa de vidro. Não sabemos quem o empurrou, se foi realmente empurrado ou por quê. Depois voltamos algumas horas para entender como todos chegaram até ali, mas, como tantas vezes aconteceu nesta temporada, a promessa de resposta é maior do que a própria resposta.

Debbie, que terminou o episódio anterior encontrando a gravação de Bret com seu pai, percebe imediatamente que ganhou uma arma. Ela confronta Terry e o chantageia: se ele quer que o segredo continue sendo segredo, terá que transformá-la em estrela. Terry não tenta nem suavizar a situação e diz que a filha não tem talento. Debbie concorda que talento pode faltar, mas informação, definitivamente, não falta. É talvez uma das poucas cenas em que o tom absurdo da série funciona exatamente como deveria.
Enquanto isso, Susan tenta encerrar de vez sua história com Thom. Ele está cada vez mais descontrolado, continua insistindo que Robert é perigoso e, no meio de uma conversa desastrosa no Hamburger Hamlet, resolve pedi-la em casamento. Sim, depois de ameaçá-la com uma faca. Susan obviamente não aceita e Debbie aparece para salvá-la daquela situação.
A leveza dura pouco. Debbie e Susan encontram a cabeça de Spirit, o cavalo de Debbie, dentro da cama. É mais uma assinatura atribuída ao Trawler e mais uma ameaça direta ao grupo. Curiosamente, porém, o trauma dura pouquíssimo na lógica da série. Logo depois, Debbie já está negociando com Bret sua futura campanha para ser rainha do baile, porque aparentemente até um cavalo decapitado precisa respeitar o cronograma social de Buckley.
Susan, por sua vez, finalmente se aproxima de Robert. Os dois parecem iniciar de fato um relacionamento, algo que deixa Bret ainda mais obcecado. Mas antes que essa história avance, Susan recebe uma ligação do Trawler e descobre que ele já está dentro de sua casa. Ela é perseguida por um homem mascarado com uma faca até conseguir se trancar no banheiro. Thom surge dizendo que lutou com o invasor e o jogou da varanda, mas não há corpo lá embaixo e Thom não apresenta nenhum sinal de luta. Mais uma dúvida. Mais uma possibilidade. Nenhuma resposta.
E então chegamos à festa de Halloween dos Schaffer, curiosamente uma festa sem fantasias. Bret finalmente confronta Robert e diz tudo o que acredita ter descoberto durante a temporada. Só que Robert faz algo muito mais interessante: vira a investigação contra ele.

Quando Bret menciona a noite que os dois passaram juntos no episódio anterior, Robert reage como se aquilo jamais tivesse acontecido. Portanto, temos agora uma possibilidade muito mais inquietante: Bret pode ter imaginado tudo. Robert também revela que tentou descobrir onde estão os pais de Bret, supostamente viajando há meses, e descobriu que o pai simplesmente deixou de aparecer no trabalho. Então pergunta se talvez Bret tenha feito alguma coisa com os próprios pais. Finalmente, acusa a Bret de ser o Trawler.
Essa inversão é provavelmente a parte mais interessante do episódio porque, pela primeira vez, a série coloca diretamente diante de nós aquilo que o livro sempre fez: Bret não é um narrador confiável. Talvez Robert seja perigoso. Talvez Bret esteja certo sobre algumas coisas. Talvez esteja completamente obcecado, paranoico e transformando desejo, ciúme e medo em uma narrativa própria.
Antes que consigamos avançar, Terry cai da varanda. Ninguém vê quem estava com ele. Steven, seu assistente, troca um olhar muito suspeito com Robert, numa cena que ganhou importância justamente na montagem, embora o ator Jordan Roth tenha contado que aquele momento entre os dois nem sequer estava originalmente roteirizado.
Todos acabam na delegacia. Bret acredita que finalmente poderá denunciar Robert. Robert também acredita ter informações suficientes para acusar Bret. Só que os dois entram numa sala e encontram Susan, Thom, Debbie, Liz, Steven e Ryan. Os detetives anunciam que chegaram à conclusão de que a pessoa responsável pelos crimes está naquela sala.
E acaba. Sim, acaba assim.
E o livro?
Aqui está a parte realmente importante. A série não mudou simplesmente alguns detalhes do romance de Bret Easton Ellis. Ela interrompeu a história antes do verdadeiro clímax do livro e transformou acontecimentos que eram parte da deterioração psicológica de Bret em ganchos para uma possível segunda temporada.
No romance, Bret e Robert jamais têm a relação sexual mostrada na série. Essa atração existe, assim como a obsessão de Bret por Robert, mas a consumação foi criada para a televisão. Portanto, quando Robert diz no final que não sabe do que Bret está falando, abre-se uma possibilidade que simplesmente não existe daquela maneira no livro: Bret pode ter inventado aquela noite inteira.
Mais importante ainda, no livro a história avança muito além do ponto em que a temporada terminou. Susan e Thom são violentamente atacados por um homem mascarado, Susan consegue mordê-lo durante a luta e, depois, Bret vai até o apartamento de Robert, decidido a confrontá-lo. Os dois brigam e Robert termina morto depois de cair do prédio. Bret conta uma versão dos acontecimentos que faz com que todos acreditem que Robert era o Trawler.
Só que então vem uma das grandes viradas do romance: o verdadeiro Trawler volta a matar e envia uma mensagem dizendo que Robert não era o assassino. Os crimes teriam sido cometidos como uma espécie de homenagem a Robert, tratado como “o Deus”. E ainda há outra revelação muito mais perturbadora. Susan percebe uma marca de mordida no braço de Bret exatamente onde havia mordido o homem que a atacou naquela noite. Ou seja, se existe uma resposta que o livro praticamente nos entrega, é que nossa maior ameaça talvez nunca tenha sido Robert.

Mesmo assim, Ellis não oferece uma solução confortável. A identidade definitiva do Trawler permanece ambígua, assim como parte do que Bret nos contou. Essa é justamente a força do romance. O mistério não existe apenas para descobrirmos quem matou quem. Ele existe porque estamos presos dentro da memória de um homem tentando reconstruir quem era aos 17 anos e talvez tentando também reconstruir uma versão de si mesmo com a qual consiga viver.
A série mudou isso. Ao dividir o ponto de vista entre vários personagens, ampliar figuras secundárias e transformar o Trawler em um mistério coletivo, The Shards saiu da mente de Bret e virou uma espécie de novela adolescente macabra, com assassinatos, sexo, adultos tão descontrolados quanto os filhos e suspeitos suficientes para sustentar mais episódios. A própria produção já havia confirmado que a primeira temporada não cobriria todo o romance.
E talvez seja esse meu maior problema com a temporada. O livro é sobre obsessão, memória, desejo e sobre a possibilidade assustadora de que a pessoa contando a história seja justamente aquela em quem menos deveríamos confiar. A série começou ali, mas foi se apaixonando cada vez mais pelo espetáculo.
Agora resta saber se haverá uma segunda temporada. Ainda não existe renovação oficial, mas o final obviamente foi construído para continuar. Ryan Murphy sabe quem pretende transformar no Trawler; nem os próprios atores receberam essa resposta.
Portanto, não terminamos The Shards. Terminamos apenas a primeira parte de uma adaptação que, a esta altura, já decidiu seguir seu próprio caminho. E, considerando a distância que percorreu do livro em apenas nove episódios, qualquer coisa pode acontecer daqui para frente.
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