Para entender por que uma simples referência a Berlim pesa tanto no encontro entre Jackson Lamb e Frank Harkness na sexta temporada de Slow Horses, é preciso lembrar quem Lamb era antes de virar o homem malvestido, grosseiro, bêbado, flatulento e verbalmente agressivo que comanda a Slough House. Por trás daquela aparência deliberadamente repulsiva está um dos melhores espiões de sua geração, um agente que trabalhou infiltrado na Alemanha durante a Guerra Fria e cuja inteligência continua sendo, temporada após temporada, a principal razão pela qual seus chamados “pangarés” permanecem vivos.
Quando voltou definitivamente para a Inglaterra, Lamb poderia teoricamente ter ocupado uma posição prestigiosa no MI5. Fez justamente o contrário. Pediu a Slough House, o purgatório para onde o Serviço manda agentes que erraram, incomodaram alguém poderoso ou simplesmente estão sendo estimulados a pedir demissão. Lamb gosta de fingir que também está apenas esperando a aposentadoria, sem interesse por trabalho, carreira ou heroísmo. Cinco temporadas já provaram o contrário. Quantas vezes o mundo teria explodido, literalmente ou não, se aquele homem que parece não querer sair da cadeira não estivesse prestando atenção?

Essa contradição é essencial para Jackson Lamb. Ele é cruel com sua equipe, conhece todas as fraquezas de cada um e jamais desperdiça uma oportunidade de humilhá-los, mas é também ferozmente protetor deles. O afeto raramente aparece como afeto. Aparece como raciocínio. Lamb percebe o perigo antes de todo mundo, entende quem está mentindo, identifica quem será sacrificado e, quando alguém ameaça um dos seus, passa a trabalhar com uma velocidade que contradiz completamente sua aparente apatia.
Também sabemos muito pouco sobre sua vida pessoal, porque Lamb transforma qualquer tentativa de aproximação numa agressão. Mas as poucas peças que a série revelou são importantes. Sabemos que sua relação com David Cartwright, o avô de River, é profundamente contaminada pelo passado. River cresceu enxergando David como uma lenda do Serviço; Lamb conhece o outro lado dessa lenda.
David não era o First Desk. Quem ocupava oficialmente o comando do MI5 era Charles Partner, chefe de Catherine Standish e um homem que ela idolatrava porque a havia apoiado nos anos em que lutava contra o alcoolismo. O problema é que Partner também era um traidor, secretamente alimentando os russos com informações britânicas. David Cartwright, um dos homens mais poderosos do Serviço, sabia disso, assim como Lamb.
E Lamb tinha razões muito pessoais para odiar essa traição. Foi ele quem descobriu que Partner repassava informações aos russos depois de mencionar, numa conversa, que uma de suas fontes dentro da Stasi era uma mulher. A informação vazou. Incapazes de identificar qual mulher trabalhava para os britânicos, os alemães orientais mataram três possíveis suspeitas. É uma daquelas pequenas histórias que Slow Horses deixa cair aparentemente no meio de outra trama, mas que explicam muito do homem que vemos décadas depois.
Partner permaneceu no cargo enquanto o MI5 o alimentava com informações falsas. Até que David Cartwright decidiu que ele deveria morrer e encarregou Lamb de fazer o serviço. Lamb matou o parceiro em casa e montou a cena para parecer suicídio. Catherine passou anos acreditando que seu antigo chefe havia tirado a própria vida e só muito depois descobriu que o homem que agora comandava sua equipe havia sido seu assassino.


É importante porque Lamb obedeceu a David, mas jamais parece ter tratado aquilo como uma decisão verdadeiramente sua. Há ressentimento ali. David usou um agente que já havia pago um preço brutal pelo jogo de espionagem para limpar outro problema criado dentro do próprio Serviço. Quando terminou o trabalho, Lamb praticamente informou a David que aquilo também encerrava sua vida como agente de campo.
É nesse contexto que a relação dele com River ganha outra dimensão. Lamb olha para o jovem Cartwright e vê talento, imprudência e, inevitavelmente, o neto do homem que ajudou a moldar alguns dos capítulos mais sombrios de sua vida. Por isso sua relação com River sempre foi ambivalente. Ele implica com o privilégio do rapaz, despreza sua reverência inicial pelo avô e, ao mesmo tempo, torna-se uma espécie de figura paterna que jamais admitiria ser. River é um Cartwright, mas não precisa necessariamente repetir David.
E então entra Frank Harkness.
Harkness surgiu como uma das figuras mais perturbadoras de Slow Horses. Ex-CIA, mercenário e psicopata, ele passou anos engravidando diferentes mulheres e criando os próprios filhos como uma espécie de força paramilitar particular. Não eram filhos no sentido emocional da palavra. Eram recursos. Homens treinados para matar, obedecer e servir aos interesses do pai.
River descobriu que era um deles.
Sua mãe, Isobel Cartwright, havia se envolvido com Harkness quando jovem, e David sabia quem ele era. Mais do que isso: quando quis recuperar a filha e o neto, usou recursos do próprio governo. Sam Chapman levou dinheiro, armas e identidades secretas do MI5 para negociar a retirada dos dois. Décadas depois, essa decisão voltaria para assombrar todos eles. Harkness continuava vivo, seus homens continuavam matando e aquelas identidades fornecidas pelo Serviço acabariam se tornando parte do problema.
Para Lamb, é mais uma peça na mesma imagem de David Cartwright. O grande homem do MI5, reverenciado por River, não hesitou em manipular operações, pessoas e recursos públicos quando precisava resolver seus próprios problemas. Pode ter feito isso para salvar a filha e o neto, o que humaniza sua decisão, mas não apaga suas consequências. Lamb sabe melhor do que ninguém que decisões tomadas por homens poderosos normalmente são pagas por outras pessoas.
Por isso, a melhor cena da sexta temporada até aqui é o encontro entre Lamb e Harkness. Gary Oldman e Hugo Weaving transformam uma conversa num duelo no qual nenhuma frase parece casual. Harkness não precisa apontar uma arma para ameaçar Lamb. Basta demonstrar o que sabe.
Quando menciona que conseguiu encontrar Lamb em Berlim, quando ele ainda trabalhava sob outra identidade, deixa de estar apenas dizendo “sou bom no que faço”. Está entrando numa região que a série acabou de nos ensinar que é profundamente pessoal.


Na temporada passada, Lamb contou uma história sobre um agente britânico capturado pela Stasi. O homem teria sido torturado durante dias porque seus interrogadores queriam o nome de uma pessoa que ele não conhecia. Queimaram a sola de seus pés. Depois trouxeram a mulher alemã com quem ele se relacionava, grávida, e a mataram diante dele. Lamb contou tudo como se estivesse falando de outro agente e depois garantiu a Catherine que havia inventado a história.
O último episódio fez questão de mostrar as cicatrizes nos pés dele.
Portanto, talvez nem todos os detalhes daquela história sejam necessariamente verdadeiros, mas a tortura certamente não foi invenção. E há algo especialmente revelador na conclusão de Lamb: ele diz que não entregou a informação porque foi heroico ou extraordinariamente resistente. Não quebrou porque simplesmente não sabia a resposta. É exatamente o tipo de corrosão de qualquer narrativa heroica que define o personagem.
Diana Taverner sabe que Lamb foi torturado e não revelou segredos. Agora descobrimos que Harkness sabe onde ele estava, que identidade utilizava e, aparentemente, conseguiu acompanhá-lo naquela época.
Isso não é uma informação pequena.
Ainda não significa que Harkness tenha participado da tortura de Lamb, que tenha conhecido sua namorada ou sequer que estivesse diretamente envolvido no episódio. Seria precipitado transformar a proximidade das informações numa revelação que a série ainda não fez. Mas também seria estranho tratar a referência como simples decoração de roteiro.


Nos livros, há outra camada que torna tudo ainda mais interessante. The Secret Hours volta a Berlim, desta vez em 1994, já depois da queda do Muro, e apresenta Lamb sob o nome de trabalho Brinsley Miles. Nesse período, David Cartwright envia uma jovem agente para investigá-lo e acaba comprometendo uma operação ao permitir que informações cheguem a Charles Partner. Posteriormente, usa o que sabe sobre Lamb para obrigá-lo a eliminar Partner.
Não é exatamente a mesma história da tortura pela Stasi, que evidentemente precisa ter ocorrido antes do fim da Alemanha Oriental. São momentos diferentes e não devemos misturá-los. Mas juntos eles revelam algo muito maior: Berlim não é um episódio da vida de Lamb. É o lugar onde várias das traições que construíram Jackson Lamb parecem ter acontecido.
E agora Harkness entra nesse passado.
Talvez seja essa a parte mais importante da conversa entre os dois. Até agora enxergávamos Frank principalmente através de River: o pai monstruoso que considera os próprios filhos instrumentos. Passamos então a enxergá-lo também através de David: o homem suficientemente perigoso para fazer uma lenda do MI5 roubar recursos do governo para tirar a filha de suas mãos.
Agora precisamos começar a enxergá-lo através de Lamb.
Quanto Harkness sabe? Sabia quem Lamb era na Alemanha? Conhecia seus contatos? Sabia que havia sido capturado? Teve alguma participação na cadeia de informações que permitiu que isso acontecesse? Ou apenas descobriu tudo depois e está usando esse conhecimento porque sabe exatamente onde atingir um homem que normalmente parece impossível de intimidar?
Por enquanto, nenhuma dessas perguntas tem resposta.
Mas há uma mudança importante. Frank Harkness deixa de ser apenas o pai psicopata de River e passa a ocupar um espaço dentro da história anterior a River, anterior à Slough House e talvez anterior ao próprio homem que aprendemos a conhecer como Jackson Lamb.
Isso provavelmente não será o centro desta temporada, especialmente porque Slow Horses sempre prefere deixar partes do passado apenas parcialmente iluminadas. Mas muda o cenário. Cada nova peça explica um pouco melhor por que Lamb terminou naquela sala imunda, cercado pelos agentes que ninguém mais queria, fingindo que nada importa.
Talvez porque, em algum momento, coisas demais tenham importado.
E, principalmente, porque ele aprendeu muito cedo o que acontece quando o Serviço decide que uma pessoa pode ser sacrificada.
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