Carrie: Flanagan acerta no elenco, mas muda a tragédia

Contém spoilers da primeira temporada.

Terminei Carrie, de Mike Flanagan, dividida. Minha avaliação é mais positiva do que negativa: há um excelente elenco, atuações que sustentam até as escolhas que me incomodaram e uma atualização muito bem construída do bullying. Mas também encontrei uma história que, em determinados momentos, se afasta tanto do original que precisei me perguntar se ainda estava ali.

Sou purista, reconheço. Isso não significa que uma adaptação precise repetir cada cena, especialmente quando o filme de Brian De Palma, de 1976, já ocupa um lugar tão forte na memória. O que me interessa é o efeito das mudanças. Algumas aprofundam o que Stephen King escreveu. Outras alteram a natureza do conflito. Flanagan faz as duas coisas, e é por isso que não saí com uma resposta simples.

A modernização funciona especialmente quando observa a crueldade entre adolescentes. O bullying ganha formas, causas, consequências e uma circulação que não termina quando a vítima sai da escola. Há o constrangimento presencial e há sua reprodução nas redes, onde uma humilhação pode ser revista, compartilhada e transformada em entretenimento. A série também acompanha quem participa, quem se omite e quem tenta voltar atrás.

Chris Hargensen, interpretada por Alison Thornton, é um dos maiores acertos. A antagonista provoca a raiva que provocava antes, mas agora entendemos muito melhor como chegou até ali. Dar contexto à sua crueldade não a torna menos responsável por ela. É uma personagem mais desenvolvida, e isso melhora a história. Billy Nolan, vivido por Arthur Conti — o papel de John Travolta no filme —, também ganha espaço, enquanto Siena Agudong sustenta bem Sue Snell, eternizada por Amy Irving.

Todo o elenco jovem funciona, assim como o adulto. A ampliação dos professores e das relações ao redor de Carrie contribui para essa sensação de uma escola habitada por pessoas, com interesses e limites próprios. Acho que seria possível contar essa história em seis episódios. Os oito dão espaço aos personagens, mas também deixam a impressão de que alguns desvios existem para prolongar o percurso.

Summer H. Howell merece um elogio especial. Sua Carrie reúne ingenuidade, força, vulnerabilidade e uma dificuldade muito particular de compreender o mundo. A atriz escapa da imitação e dos clichês: constrói uma menina que nos interessa antes de nos assustar. Não é pouca coisa num papel tão associado a Sissy Spacek.

A mãe ganha contexto, mas o conflito muda

Samantha Sloyan, como Margaret White, também dá um show. A atuação é uma das melhores razões para assistir à série. Minha ressalva está na construção da personagem e na mudança de sua relação com a filha.

Flanagan desloca parte do peso da obsessão religiosa para uma paranoia reconhecível hoje: teorias da conspiração, desconfiança das instituições, medo do governo e uma necessidade de controlar o contato da filha com o mundo. Não falta atualidade nessa escolha. O isolamento doméstico e a suspeita permanente podem produzir uma prisão tão concreta quanto aquela imposta pelo fanatismo.

O problema é como essa mulher passa a circular fora dela. Margaret manteve Carrie afastada da sociedade e da tecnologia, mas, quando precisa agir, parece navegar com desenvoltura por celulares, câmeras, redes sociais e transmissões ao vivo. Carrie mal conhece um computador, enquanto a mãe rapidamente domina ferramentas que aquela vida de isolamento parecia rejeitar. Entendo que proibir a filha de usar algo não significa desconhecê-lo. Ainda assim, senti falta de uma transição que tornasse essa diferença mais convincente.

Mais decisiva é a transformação de Margaret em uma mãe que enfrenta o mundo para defender Carrie. Ela continua controladora e capaz de violência; a religião tampouco desaparece completamente. Mas o espaço dado à proteção modifica o peso da repressão. Em vários momentos, vejo uma mulher inconveniente, autoritária e excessiva que também se mobiliza pela filha.

No original, a casa é parte essencial do terror. Carrie sofre na escola e volta para uma mãe que pode puni-la por aquilo que ela não compreende e pelo que não tem culpa. Seu corpo, sua sexualidade e seus poderes são atravessados por medo e vergonha. A repressão doméstica participa da explosão.

Por isso, não acho que atualizar Margaret exigisse reduzir tanto o peso do fanatismo religioso. Ele continua perfeitamente possível no presente. A paranoia institucional poderia se somar à religião, mantendo essa dimensão sufocante. Queria compreender melhor a mãe sem que Carrie encontrasse nela tanta proteção ao longo do caminho.

Chris demonstra que isso era possível: ganha contexto e continua antagonista. Margaret também ganha contexto, mas sua função oscila de uma forma que altera minha experiência da história. A complexidade é bem-vinda; a redução do medo que ela provoca na filha me deixa dividida.

O mistério sobrenatural que parece pertencer a outra série

Também tive dificuldade com Emaline, interpretada por Thalia Dudek. A presença dessa suposta amiga, que parece existir apenas para Carrie, produz um efeito próximo de Fight Club: precisamos reconsiderar o que vimos e quem estava de fato naquela relação.

Aqui cabe uma distinção: o desfecho explica Emaline como alguém capaz de projeção astral, e não simplesmente como uma amiga imaginária que permitiria diagnosticar Carrie. Ela interfere no massacre e depois aparece fisicamente para levá-la embora. A mãe também manifesta poderes, usando-os para se proteger do desabamento.

A explicação resolve parte das perguntas, mas não meu incômodo com a escolha. Para que acrescentar essa intermediária à relação de Carrie com sua própria força? A história já tinha uma tensão enorme entre a menina reprimida e a possibilidade de deixar de ser impotente. A presença de outra personagem conduzindo parte da violência modifica essa tensão.

As figuras que investigam seus poderes ampliam ainda mais o desvio. Flanagan explicou à Entertainment Weekly que criou uma sociedade de mulheres com capacidades psíquicas, liderada por Adelaide, de Kate Siegel. A proposta dialoga com o universo mais amplo de King, sem adaptar diretamente O Instituto.

Entendo a intenção. Mas, assistindo, senti que essas personagens abriam outra história quando eu ainda queria acompanhar aquela. Quem são, quais interesses têm e por que Carrie precisa entrar nessa disputa? A curiosidade existe, mas não considero que ela melhore automaticamente a tragédia que trouxe o público até ali.

Um massacre impressionante, com saídas pouco claras

A encenação do baile é espetacular. Flanagan constrói a humilhação, o ataque e a destruição com força. Howell sustenta o centro emocional de uma sequência que exige muito dela, e o horror físico funciona.

O que me incomodou foi a clareza das sobrevivências. No filme de 1976, Sue está do lado de fora depois de ser expulsa pela professora, e essa posição explica por que escapa. Na série, ela entra no desastre, e sua sobrevivência, assim como a de Tina, me deixou procurando a passagem entre estar presa naquele espaço e conseguir sair.

Há elementos que explicam: Sue sobe ao palco para tentar ajudar Tommy, ficando protegida da eletrocussão; Tina consegue escapar durante uma falha de concentração de Carrie. São as saídas apontadas pela análise do final publicada pelo JustWatch. Mas não senti que a montagem lhes desse a clareza e o peso necessários diante da dimensão da destruição. Proteger Sue da eletricidade não encerra, por si só, a questão do incêndio e da fuga.

É preciso também separar as versões. Sue não é a única sobrevivente no romance, e Tina Blake já existe no livro: Flanagan amplia a personagem, em vez de inventá-la. Minha referência visual mais forte é De Palma, mas não seria correto tratar todas as soluções do filme como se fossem exatamente as de King.

A fuga de Margaret da casa também tem uma explicação sobrenatural, como o final revela. Ainda assim, a sucessão de personagens preservados reforçou minha sensação de que o desfecho estava ocupado em abrir possibilidades para continuar. Não me incomoda a existência de sobreviventes. Me incomoda precisar reconstruir tanto a lógica de como sobreviveram, numa sequência que aposta na devastação.

O que disseram os críticos, King e Flanagan

A recepção crítica ajuda a situar essa divisão. Como eu, há elogios quanto à atualização dos temas, mas para alguns, ao se afastar do terror e abraçar o drama, a série ficou menos assustadora do que deveria ou poderia. E sim, também concordamos em questionar o alongamento do romance para a televisão.

A inserção de Emaline tampouco foi unânime: há quem considere que ao colocar nela a parte decisiva da violência, a série enfraquece a responsabilidade de Carrie e a ambiguidade entre vítima e algoz. É uma discussão que ajuda a entender o quanto a expansão sobrenatural modifica o centro da história.

Como Flanagan falou em três temporadas como cenário desejado, ele precisou deixar alguns eixos a serem trabalhados, mas como ainda não houve confirmação de renovação, enfraqueceu a conclusão dessa temporada.

Talvez seja justamente essa porta que explique parte da minha resistência. Gostei da atualização, do olhar para o bullying, da profundidade de Chris e, sobretudo, das atuações. Mas terminei querendo que a série confiasse mais na força daquela menina e no conflito que já existia ao redor dela. Quando o caminho adiante ganha tanta importância, a tragédia deixa de ser destino e passa a parecer ponto de partida. É uma escolha legítima. Para esta purista, também é o momento em que Carrie começa a se tornar outra história.


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