O retrato da mulher que inspirou Henry James

Isabel Archer é uma das heroínas trágicas do universo de Henry James que aparece em um de seus melhores e mais conhecidos livros, O Retrato de Uma Mulher. Escrita há 140 anos, a obra é até hoje um espetacular estudo sobre o feminismo, a opressão da sociedade e a oposição entre um mundo novo e o velho.

Isabel é a jovem americana espirituosa e aventureira, que se recusa a aceitar que a vida de uma mulher é definida pelo casamento. Ela quer conhecer o mundo e ter autonomia nas suas decisões, mas, infelizmente, é justamente sua convicção quase inocente que a faz cair nas artimanhas de manipuladores atrás de sua fortuna. Como os livros de Henry James, SPOILER ALERT, a conclusão da história é controversa e triste.

A trajetória de Isabel Archer é inspirada na vida da pintora americana Elizabeth Boott Duveneck, amiga do escritor. Lizzie, como era conhecida, era a filha única do rico músico, Francis Boott. Nascida em Boston, ela foi criada com luxo em Florença, Itália. Através de seu pai, que a encorajou a pintar, Lizzie conheceu o jovem Frank Duveneck, que aos 27 anos já era considerado um dos grandes pintores americanos. Seus quadros são considerados realistas e diretos, tendo aberto para uma nova forma de aplicação de tinta nas telas. Lizzie se encantou com seu trabalho e foi estudar com Frank na Itália, nascendo assim, um romance entre eles.

Frank e Lizzie

A diferença social entre os dois, assim como a de idade (Lizzie era dois anos mais velha que Frank) fazia do relacionamento um tabu. O pai de Lizzie, Francis, acreditava piamente que Frank só quisesse a fortuna da filha e expressou suas preocupações para Henry James, que concordava. “Para ele é só vantagem e para ela apenas coragem”, escreveu na época sobre o relacionamento. Embora mais tarde Francis tenha mudado de idéia sobre o genro, não é à toa que parte do relacionamento entre Francis e Lizzie tenha servido de inspiração também para Washington Square, outro clássico do escritor, que analisa com frieza e precisão a dura realidade feminina no século 19. Lizzie e Frank só se casaram quando ela tinha quase 40 anos. Tiveram um filho, mas ela faleceu dois anos depois, vítima de uma pneumonia que custou sua vida. Dizem que ficou doente ao passar horas posando para um retrato feito pelo marido. Era inverno e ela pegou uma gripe que avançou rapidamente para pneumonia.

Como acontecia com muitas mulheres de sua época, os trabalhos de Lizzie (mesmo que elogiados) ficaram à sombra do casamento e os do marido. Após sua morte, Frank decaiu em sua arte e Lizzie foi frequentemente apontada como a “culpada” tanto pela mudança de estilo do pintor como sua decadência provocada pela depressão após sua morte.

A obra de Lizzie eram retratos, paisagens e cenários em geral. A amizade com a família James nasceu em Boston e seguiu por toda vida, inclusive com visitas de Henry à Villa Castellanni, onde a pintora vivia com seu pai e que serviu como base no livro O Retrato de Uma Mulher para a casa de Gilbert Osmond e sua filha, Pansy.

No livro SPOILER ALERT, Osmond manipula Isabel em se apaixonar e se casar, aparentando encorajar sua independência apenas para castrá-la sem piedade após se casarem. No final, Isabel tem uma opção de deixá-lo, mas escolhe voltar para o marido e a união infeliz. O final escrito por Henry James é duramente criticado por feministas, mas é realista com a época, apenas ressaltando a falta de oportunidade de uma mulher de fato conseguir ser independente. Não foi apenas Isabel que nos livros do escritor sofre com julgamentos da sociedade conservadora. O livro é lindo e profundamente perturbador.

Após a morte de Lizzie, Frank voltou para os Estados Unidos, mas sua arte decaiu vertiginosamente. Embora fosse pintor, fez uma escultura em homenagem à sua mulher que é considerada uma das suas melhores obras. A original está no túmulo de Lizzie, na Itália. A reprodução em mármore, encomendada pelo sogro, Francis, está no Museu de Belas Artes de Boston. A escultura em bronze retrata Lizzie com uma expressão pacífica, como se estivesse dormindo.

Henry James foi ao enterro de Lizzie e escreveu emocionado para o pai dela sobre a homenagem feita à ela. “Ficamos comovidos até as lágrimas”, escreveu “a grande verdade é que apenas a Arte triunfa sobre o destino”.

Os livros de Henry James que foram inspirados em Lizzie (A Taça de Ouro, Washington Square e Retrato de Uma Mulher) já foram adaptados para o cinema. Retrato de Uma Mulher, de 1996, trouxe uma excelente Nicole Kidman na pele de Isabel Archer. Já Washington Square virou peça de teatro e o filme Tarde Demais, de 1949 e com Olivia de Havilland, rendeu a ela seu primeiro Oscar de Melhor Atriz. Infelizmente a verdadeira história de Lizzie ainda não foi retratada dignamente. Infelizmente.

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