A Rosa (1979): o retrato de Janis Joplin que não pôde ser feito

Depois de ver Michael em sua versão “sanitizada”, imediatamente lembrei de como outras lendas passaram por processos semelhantes, ainda que por caminhos diferentes, de disputa em torno da própria memória. E, de forma quase irônica, o que “sobrou” dessa impossibilidade foi um grande filme.

É impossível escapar do trocadilho: A Rosa, para mim, é uma pérola. E é profundamente revelador que tenha começado como um filme que não pôde ser feito. Antes de se tornar o retrato ficcional de Mary Rose Foster, o projeto era uma cinebiografia direta de Janis Joplin, ainda muito próxima no tempo de sua morte, menos de dez anos depois. O título original, Pearl, deixava pouca margem para dúvida, afinal, era o nome do álbum final da cantora.

Mas, naquele momento, transformar Janis em narrativa ainda era impossível. Sua memória não estava organizada, tampouco estabilizada o suficiente para caber em um retrato definitivo. Diferente de Michael, em que há uma tentativa clara de controlar e preservar uma imagem, aqui o impasse era outro: não havia ainda uma versão consensual a ser contada.

E talvez seja exatamente por isso que A Rosa funciona tão bem. Ao abandonar a obrigação da fidelidade, o filme encontra algo mais próximo da verdade emocional. A ficção, nesse caso, não suaviza, ao contrário, expõe. Permite acessar o desgaste, a contradição e a autodestruição de uma artista em cena sem a necessidade de proteger um legado em disputa.

O que não pôde ser feito como biografia acabou se tornando mais revelador como invenção. E, nesse deslocamento, A Rosa talvez diga mais sobre Janis Joplin do que um filme que levasse seu nome jamais conseguiria dizer naquele momento.

Por que a família de Janis Joplin barrou o filme

A recusa da família de Janis em ceder os direitos não foi apenas uma questão contratual. Havia uma preocupação clara com a forma como a cantora vinha sendo retratada publicamente. Já naquele momento, sua imagem começava a ser cristalizada como a de uma artista autodestrutiva, marcada por excessos, dependência química e uma vida fora de controle.

Ao impedir a biografia oficial, a família também impediu que Hollywood organizasse essa trajetória dentro de um arco dramático previsível. A solução encontrada pelos produtores foi transformar o projeto em ficção, criando Mary Rose Foster. A mudança não apagou a inspiração evidente, mas permitiu que o filme existisse sem o compromisso de ser fiel a fatos específicos, o que acabou ampliando sua força como estudo de personagem.

Como o projeto mudou de direção

O filme que chegou às telas poderia ter sido outro. O projeto foi inicialmente oferecido a Ken Russell, conhecido por seu estilo excessivo e visualmente operístico. Sua recusa abriu caminho para Mark Rydell, cuja abordagem é mais contida, menos interessada no espetáculo e mais focada no comportamento.

Essa mudança altera profundamente o resultado final. Em vez de uma biografia estilizada, A Rosa se constrói como um drama que observa o desgaste emocional de sua protagonista. A ausência de uma estética grandiosa desloca o peso do filme para a atuação e para a sensação de exaustão que atravessa toda a narrativa.

Como Bette Midler chegou ao papel

A escolha de Bette Midler é central para entender o impacto do filme. O papel não foi concebido originalmente para ela, mas chegou por indicação após Suzy Williams recusá-lo. Naquele momento, Midler era conhecida por suas performances no palco, com uma presença intensa e pouco domesticada pelo cinema.

Essa falta de moldura cinematográfica tradicional se transforma em qualidade. Sua Mary Rose Foster não é uma construção controlada, mas uma presença em constante tensão. Há uma sensação de risco em cada cena, como se a personagem pudesse escapar do próprio filme. Em vez de suavizar essa instabilidade, a direção a incorpora como elemento central.

Quem foi Suzy Williams e por que ela importa para A Rosa

Aqui valem os parênteses para entender como Bette Midler virou a estrela que é ainda hoje por causa de um nome que hoje, internacionalmente, não tem o mesmo impacto.

Suzy Williams não é um nome que tenha atravessado décadas com o mesmo peso de outras figuras da música dos anos 1960 e 1970, e talvez por isso sua presença na origem de A Rosa seja tão curiosa. Ela pertence a um grupo de artistas que existiram muito mais intensamente dentro do circuito musical do que na memória consolidada da cultura pop.

Cantora americana, Williams construiu sua trajetória principalmente na cena de rock e soul do fim dos anos 1960, circulando por ambientes muito próximos daqueles que moldaram figuras como Janis Joplin. Não era uma estrela do mesmo porte, mas compartilhava esse universo de bandas, turnês e performances ao vivo em que a intensidade vocal e a presença de palco eram centrais. Era, sobretudo, uma intérprete com credibilidade dentro daquele meio, alguém que compreendia por experiência própria o tipo de personagem que A Rosa tentava construir.

É justamente por isso que ela aparece como a primeira escolha para o papel de Mary Rose Foster. Naquele momento, a ideia de escalar uma cantora com vivência real naquele circuito fazia todo sentido, especialmente para um projeto que ainda carregava a intenção inicial de ser uma biografia de Janis. Williams traria não apenas técnica, mas autenticidade.

A recusa veio por razões pessoais, e sua carreira acabou não seguindo um caminho de grande projeção no cinema ou mesmo de consagração mainstream na música. Mas o gesto seguinte é o que a inscreve, ainda que indiretamente, na história do filme: foi ela quem sugeriu o nome de Bette Midler para o papel.

Esse detalhe muda tudo.

Porque Midler não vinha exatamente do mesmo lugar. Sua formação era outra, mais ligada ao cabaré, à performance teatral, a uma construção de persona muito consciente. Onde Williams representaria continuidade e verossimilhança, Midler trouxe interpretação e intensidade. E, ao fazer isso, deslocou o filme de um registro mais naturalista para algo mais performático, mais instável, mais imprevisível.

Há uma ironia silenciosa nisso tudo. A atriz que poderia ter dado ao filme uma proximidade maior com a realidade acabou sendo a responsável por indicar aquela que o transformaria em outra coisa, menos fiel, talvez, mas muito mais marcante.

Suzy Williams não ficou com o papel. Mas, de certa forma, está no filme até hoje.

As filmagens e a energia quase documental

Uma das decisões mais importantes da produção foi filmar as cenas de show com plateias reais, criando uma energia difícil de reproduzir em estúdio. O resultado aproxima o filme de um registro quase documental, especialmente nas sequências musicais, que funcionam menos como encenação e mais como captura de um momento.

A fotografia de Vilmos Zsigmond reforça essa sensação ao construir imagens com uma textura quente e instável, como se tudo estivesse à beira do colapso. A proposta era expor a personagem, não protegê-la, criando um ambiente visual que acompanha seu desgaste emocional.

A trilha sonora e o sucesso de “The Rose”

A trilha sonora amplia o alcance do filme de forma decisiva. Sem eleger nenhum dos sucessos imortalizados por Janis, outros sucessos fizeram parte do repertório. Incluindo a canção-título.

The Rose”, escrita por Amanda McBroom, não foi originalmente composta para o projeto, o que a impediu de concorrer ao Oscar, mas acabou se tornando inseparável dele.

Interpretada por Midler nos créditos finais, a música oferece um contraponto delicado à narrativa, funcionando quase como uma resposta emocional ao que foi visto. O sucesso foi imediato, transformando-se em um dos maiores hits da carreira da atriz e consolidando o impacto cultural do filme para além do cinema.

Oscar, indicações e a derrota para Norma Rae

A Rosa recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Atriz para Midler e Melhor Ator Coadjuvante para Frederic Forrest.

A vitória de Sally Field por Norma Rae segue a lógica da Academia, que tende a privilegiar narrativas mais estruturadas e performances associadas a temas sociais claros. O trabalho de Midler, por outro lado, é menos organizado, mais instintivo e marcado por contradições, o que o torna menos facilmente enquadrável dentro desse padrão. Para mim, uma das maiores injustiças da premiação.

Como rever A Rosa hoje, em meio aos biopics musicais

Rever A Rosa hoje, depois de décadas em que as cinebiografias musicais se tornaram um gênero consolidado, produz um deslocamento interessante. O filme não segue a estrutura que hoje parece obrigatória, com ascensão, queda e redenção cuidadosamente organizadas.

Em vez disso, ele se recusa a explicar completamente sua protagonista. Não há uma tentativa de transformar Mary Rose Foster em símbolo ou exemplo. O que existe é uma observação contínua de uma personagem em desgaste, sem a necessidade de justificá-la ou redimi-la.

Em um momento em que o cinema frequentemente organiza o passado em narrativas limpas e reconhecíveis, A Rosa permanece como um retrato mais instável e, justamente por isso, mais próximo daquilo que essas histórias muitas vezes tentam simplificar.

Talvez por isso, décadas depois, Hollywood ainda retorne a esse impasse. Desde 2021, uma nova versão de A Rosa, com Cynthia Erivo, segue em desenvolvimento, como se essa história, mesmo à distância, ainda resistisse a uma forma definitiva.


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