Wallis Simpson: 40 anos depois, a mulher que abalou a monarquia britânica continua cercada por fascínio e desconforto

Em abril de 1986, Wallis Simpson morreu em Paris aos 89 anos, encerrando uma das histórias mais controversas do século 20. Quarenta anos depois, a figura da mulher americana, divorciada duas vezes, por quem Eduardo VIII abdicou do trono britânico em 1936, continua ocupando um espaço estranho na memória coletiva: ao mesmo tempo mito romântico, símbolo de ambição social, bode expiatório institucional e personagem central na transformação da própria monarquia moderna.

Poucas figuras femininas foram tão reduzidas a uma caricatura histórica. Durante décadas, Wallis foi apresentada quase como uma intrusa que seduziu um rei e desestabilizou um império. A narrativa romântica transformou Eduardo VIII no homem que abriu mão da coroa “por amor”, enquanto a narrativa institucional precisava encontrar nela a responsável por uma crise constitucional que expôs fragilidades profundas da monarquia britânica no período entre guerras.

Mas a história real é mais complexa, mais desconfortável e talvez até mais triste.

Wallis Warfield nasceu em 1896, em Baltimore, nos Estados Unidos, em uma sociedade que valorizava status social, aparência e casamentos estratégicos como formas de ascensão. Inteligente, sofisticada e extremamente consciente dos códigos sociais, ela circulou entre elites americanas e europeias até conhecer Eduardo, então príncipe de Gales, no início dos anos 1930. O relacionamento cresceu rapidamente, mas encontrou um obstáculo impossível para a época: Wallis era divorciada, e a Igreja Anglicana, da qual o rei era chefe supremo, não aceitava o casamento religioso de divorciados com ex-cônjuges vivos.

O problema, porém, nunca foi apenas moral.

A crise revelou o choque entre uma monarquia ainda construída sobre rigidez vitoriana e um mundo que começava a entrar na modernidade midiática. Eduardo VIII era impulsivo, emocionalmente instável, pouco interessado nos deveres institucionais e profundamente fascinado pela ideia de viver como celebridade internacional. Wallis, por sua vez, compreendia melhor do que muitos aristocratas a força da imagem pública, do estilo e da circulação social. De certa maneira, o casal antecipava uma monarquia muito mais baseada em espetáculo, desejo popular e exposição emocional do que a instituição estava preparada para aceitar nos anos 1930.

A abdicação de Eduardo VIII em dezembro de 1936 transformou Wallis em uma das mulheres mais odiadas do mundo. Ela jamais recebeu o tratamento de “Sua Alteza Real”, mesmo após o casamento com o agora duque de Windsor, uma recusa que expunha o ressentimento permanente da família real. A exclusão institucional nunca terminou completamente. Mesmo décadas depois, Wallis continuava sendo tratada como alguém tolerada, nunca plenamente aceita.

Existe também outro aspecto que torna a memória do casal desconfortável para historiadores e para a própria monarquia: as simpatias do duque e da duquesa de Windsor pela Alemanha nazista. Fotografias do encontro com Adolf Hitler em 1937 continuam sendo um dos registros mais perturbadores da história da família real britânica. Há décadas, pesquisadores debatem até que ponto Eduardo VIII representava um risco político real, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial. O chamado “Marburg Files”, conjunto de documentos alemães encontrados após a guerra, alimentou suspeitas sobre o interesse nazista em utilizar o ex-rei como peça estratégica caso a Grã-Bretanha fosse derrotada.

Wallis sempre tentou controlar a própria narrativa. Elegante, reservada e frequentemente irônica, tornou-se ícone de moda e sofisticação internacional. Seu estilo influenciou décadas de alta-costura, joalheria e fotografia de sociedade. Ainda assim, há algo profundamente melancólico em sua trajetória posterior. Depois da morte do duque de Windsor, em 1972, Wallis passou anos isolada em Paris, cada vez mais distante da vida pública, cercada por disputas financeiras, problemas de saúde e uma existência quase fantasmagórica.

Talvez por isso ela continue fascinando tanto o cinema, a televisão e a literatura. Wallis não cabe inteiramente nem na fantasia do grande amor nem na da manipuladora social. Ela ocupa uma zona muito mais ambígua: a da mulher transformada em símbolo para que uma instituição pudesse sobreviver sem admitir suas próprias contradições.

Essa ambiguidade aparece diretamente na forma como Hollywood e a televisão decidiram retratá-la ao longo das décadas. Em muitas produções, Wallis surge quase como femme fatale clássica, uma mulher sofisticada cuja presença ameaça estruturas tradicionais de poder masculino. Em outras, ela aparece como vítima de um sistema aristocrático profundamente misógino e elitista, incapaz de aceitar uma americana divorciada em posição de protagonismo dentro da família real.

Uma das representações mais lembradas continua sendo a minissérie Edward & Mrs. Simpson (1978), da ITV, estrelada por Edward Fox e Cynthia Harris. A produção ajudou a consolidar para uma geração inteira a imagem melancólica do casal Windsor, tratando a abdicação menos como conto de fadas romântico e mais como tragédia emocional e política. Já nos anos 1980, Wallis voltou ao centro da cultura pop em The Woman He Loved (1988), telefilme estrelado por Jane Seymour, reforçando a ideia da mulher dividida entre paixão, culpa e sobrevivência social.

Mas talvez nenhuma atriz tenha se conectado tão profundamente à figura pública de Wallis quanto Joan Collins. Em The Woman He Loved e em entrevistas posteriores, Collins parecia compreender intuitivamente a dinâmica de glamour, julgamento moral e exílio social que cercava a duquesa. Não por acaso, a própria Joan Collins sempre viveu uma relação ambígua com a imprensa britânica: celebrada como símbolo de sofisticação e ao mesmo tempo frequentemente tratada com desconfiança por sua imagem de mulher excessivamente ambiciosa, sensual e internacional. Algo parecido com o que acontecia com Wallis décadas antes.

Em The Crown, Wallis aparece marcada por uma mistura de ressentimento, ironia e melancolia tardia. A série enfatiza o isolamento emocional do casal Windsor após a abdicação, quase como duas figuras congeladas fora do tempo, vivendo eternamente à margem da instituição que ajudou a transformar. Há uma tristeza constante naquela representação: Eduardo parece incapaz de encontrar sentido depois da perda do trono, enquanto Wallis transmite a sensação de alguém que passou décadas sendo culpada por algo maior do que ela mesma.

Já o filme W.E. (2011), dirigido por Madonna, talvez seja a tentativa mais explícita de revisitar Wallis sob uma ótica contemporânea e feminina. O longa tenta reconstruir sua imagem para além do estereótipo da “destruidora de reinos”, aproximando-a de discussões sobre desejo, sacrifício, performance social e aprisionamento emocional. Ainda que tenha dividido crítica e público, o filme ajudou a reposicionar Wallis como figura trágica e não apenas manipuladora.

A ligação de Madonna com essa história nunca pareceu acidental. Americana, vivendo na Inglaterra havia anos quando realizou o filme e constantemente observada pela imprensa britânica como uma estrangeira barulhenta demais para certos códigos aristocráticos, Madonna parecia enxergar em Wallis algo além da figura histórica. Havia ali uma identificação clara com a mulher americana transformada em obsessão midiática dentro de um país fascinado e desconfortável com outsiders femininas que ocupam espaço demais. Em muitos sentidos, W.E. também funciona como um comentário indireto sobre a própria experiência de Madonna vivendo sob escrutínio permanente no Reino Unido.

A estética luxuosa do filme reforçou algo que sempre cercou a duquesa: a ideia de que Wallis entendia a própria imagem quase como construção artística, décadas antes da cultura de celebridades contemporânea. Ao mesmo tempo, Madonna insiste em mostrar o custo psicológico desse processo, sugerindo que Wallis talvez tenha se tornado prisioneira da narrativa criada em torno dela.

Outras produções, documentários e biografias televisivas frequentemente retornam ao mesmo ponto: até que ponto Wallis realmente queria que Eduardo abdicasse? Muitos historiadores defendem que ela própria se assustou com as proporções da crise e chegou a considerar deixar o relacionamento para evitar o colapso institucional. Essa leitura altera completamente a percepção tradicional da história, porque desloca Wallis do papel de arquiteta calculista para alguém também tragada pelos desejos, fragilidades e obsessões de Eduardo VIII.

Existe ainda um detalhe revelador: mesmo em narrativas contemporâneas mais simpáticas à duquesa, quase nunca se consegue escapar totalmente da ideia de que Wallis precisava ser “explicada”. Poucos homens ligados a crises institucionais recebem esse mesmo tratamento psicológico incessante. Ela continua sendo observada como enigma, como mulher excessivamente moderna para o período em que viveu e, talvez exatamente por isso, permanentemente desconfortável para a memória oficial da realeza britânica.

É impossível olhar para a história de Wallis Simpson hoje sem perceber como ela ecoa em crises posteriores da monarquia britânica. A obsessão institucional pelo controle da imagem, o medo de figuras “de fora”, o desconforto diante de mulheres americanas divorciadas entrando na família real e a tentativa constante de equilibrar tradição e celebridade reapareceriam décadas depois, de Diana a Meghan Markle, ainda que em contextos completamente diferentes.

A comparação com Meghan, aliás, se tornou inevitável nos últimos anos, especialmente na imprensa britânica. Evidentemente, os contextos históricos são radicalmente distintos. Meghan entrou em uma monarquia já atravessada por televisão global, internet, cultura de celebridades e discussões contemporâneas sobre raça, misoginia e saúde mental. Ainda assim, existe um eco desconfortável entre as duas trajetórias: ambas americanas, divorciadas, vistas inicialmente como figuras “modernizadoras” e depois transformadas em foco de ansiedade institucional e midiática.

Há também algo revelador na maneira como parte da cobertura britânica parece recorrer repetidamente ao mesmo imaginário da mulher estrangeira que ameaça a estabilidade da Casa de Windsor. Em momentos diferentes, Wallis e Meghan acabaram convertidas em símbolos sobre os quais a monarquia projeta medos maiores: perda de controle, mudança cultural, exposição emocional excessiva e a dificuldade da instituição em lidar com figuras femininas que não aceitam desaparecer dentro do protocolo.

Quarenta anos após sua morte, Wallis permanece como uma espécie de fantasma persistente da Casa de Windsor. Não apenas porque um rei abdicou por ela, mas porque sua existência obrigou a monarquia a confrontar algo que continua atual até hoje: a dificuldade de sobreviver em um mundo onde emoção, desejo público, escândalo e performance midiática se tornaram inseparáveis do poder.


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