A joia que sobreviveu mais como imagem do que como objeto
No dia 19 de maio de 1536, Ana Bolena foi executada na Torre de Londres após ser acusada de adultério, incesto e traição contra Henrique VIII. Quase cinco séculos depois, muito da sua vida continua envolto em disputas históricas, reconstruções políticas e fascínio cultural. Mas poucas imagens sobreviveram de maneira tão poderosa quanto a do colar com a letra “B” pendurada entre pérolas que, até hoje, define visualmente a rainha.
O curioso é que talvez nenhuma outra joia da história inglesa seja tão famosa e, ao mesmo tempo, tão misteriosa.
Não existem documentos comprovando quem criou o colar, quando ele foi confeccionado ou o que aconteceu com ele após a morte de Ana. Não há registros fiscais conhecidos, inventários detalhados ou provas materiais de sua sobrevivência. Ainda assim, o colar atravessou os séculos como um dos maiores símbolos da era Tudor, transformando-se quase em uma extensão da própria figura de Ana Bolena.
E isso ajuda a explicar por que, 490 anos após sua execução, ela continua tão presente na cultura popular, na literatura, no cinema e no imaginário coletivo.
Porque Ana Bolena foi uma das primeiras mulheres da monarquia inglesa a compreender profundamente o poder da própria imagem.

A moda Tudor como linguagem política
Na Inglaterra Tudor, aparência nunca era apenas aparência. Nobres eram educados desde a infância para entender que roupas, tecidos, joias e adornos refletiam diretamente posição social, honra familiar e legitimidade política. Uma joia não funcionava apenas como acessório. Funcionava como linguagem. Como declaração pública de pertencimento, linhagem e autoridade.
A versão mais aceita entre historiadores é que o colar fazia parte da coleção pessoal da família Boleyn. A letra “B” representaria não apenas “Boleyn”, mas a força política de uma linhagem que, naquele momento, tentava consolidar espaço dentro da corte inglesa. Diferentemente da imagem construída posteriormente de Ana apenas como amante ambiciosa de Henrique VIII, os Boleyn eram uma família sofisticada, politicamente estratégica e extremamente conectada ao cenário europeu.
Seu pai, Thomas Boleyn, era diplomata influente. Sua mãe vinha da poderosa família Howard. E Ana passou anos decisivos na França, servindo na corte francesa durante a juventude.
A influência francesa e a criação de uma identidade visual
É justamente ali que muitos historiadores acreditam que nasceu a inspiração para a joia.
Na França do início do século 16, joias personalizadas com iniciais, medalhões e símbolos familiares eram tendência entre mulheres aristocráticas. Ana absorveu profundamente aquela estética continental e retornou à Inglaterra trazendo não apenas novas referências de moda, mas uma visão muito mais moderna sobre performance social, imagem pública e identidade feminina. Retratos contemporâneos de figuras como Anne de Pisseleu, amante de Francisco I, já mostravam mulheres usando pingentes com iniciais como parte importante de sua apresentação pública.
O colar com a letra “B”, portanto, não parecia funcionar apenas como adorno. Funcionava quase como uma assinatura visual.

Por que “B” e não “A”?
E isso ajuda a responder uma das perguntas mais curiosas em torno da peça: por que a letra “B” e não “A”, de Anne?
Porque o sobrenome importava politicamente.
Mais do que representar apenas a mulher Ana, o colar representava a Casa Boleyn. Representava linhagem, ambição, poder e pertencimento. Era uma forma de afirmar sua origem aristocrática e sua posição dentro da corte. Em uma monarquia construída sobre sangue, alianças e herança, o “B” carregava um peso político muito maior do que um simples monograma pessoal.
Isso não era incomum entre mulheres nobres da época. Margaret of York, por exemplo, aparecia usando um “B” referente ao título de Duquesa da Borgonha, enquanto outras aristocratas utilizavam letras associadas às suas famílias ou títulos.
As outras joias de Ana Bolena
Ao mesmo tempo, Ana também possuía outras joias ligadas às próprias iniciais. Registros históricos mencionam peças com “A”, “AB”, “AR” e combinações heráldicas associadas tanto aos Boleyn quanto aos Tudor. Isso reforça a ideia de que ela construía conscientemente uma identidade visual própria muito antes de mulheres da realeza fazerem isso de forma sistemática.
Inclusive, desenhos atribuídos a Hans Holbein, o Jovem, mostram que a corte de Henrique VIII utilizava joias personalizadas como parte importante da linguagem visual do poder. Há registros de monogramas “HA”, representando Henry e Anne, reforçando como a iconografia do casal foi cuidadosamente construída durante o período de ascensão de Ana dentro da corte inglesa.
Existe ainda um detalhe fascinante nesses monogramas: em algumas representações do símbolo “HA”, as letras escondem uma mensagem visual quase secreta. O desenho forma discretamente a frase “H AMAT A”, em latim, algo próximo de “Henry ama Anne”. O casal utilizou o emblema em paredes, palácios, tetos e objetos pessoais como uma espécie de identidade conjunta do reinado que tentavam construir.

O simbolismo das pérolas
Poucas rainhas entenderam tão bem o poder simbólico da aparência quanto Ana Bolena.
As pérolas presentes no colar também não eram casuais. O colar é tradicionalmente descrito como uma gargantilha curta feita de pérolas, com um pingente central em ouro maciço em forma de “B”, do qual pendiam três grandes pérolas em formato de gota. Na iconografia Tudor, as pérolas estavam associadas à pureza, castidade e virtude feminina. O detalhe ganha uma dimensão quase cruel quando lembramos que Ana foi executada justamente sob acusações de promiscuidade e adultério que hoje muitos historiadores consideram politicamente fabricadas.
Nos retratos, ela aparece elegante, controlada, refinada e cercada por símbolos de legitimidade.
É como se a própria imagem resistisse às acusações.
O mistério dos retratos
E existe outro detalhe fascinante nisso tudo: não há retratos comprovadamente pintados de Ana Bolena usando o colar enquanto ela ainda estava viva.
As imagens mais famosas da rainha, incluindo a versão eternizada pela National Portrait Gallery, foram produzidas anos depois de sua execução, provavelmente baseadas em descrições, cópias ou em um retrato original hoje perdido. Existem pelo menos três versões conhecidas desse retrato, todas criadas posteriormente. Historiadores acreditam que a imagem original provavelmente foi pintada antes de Ana se tornar rainha, por volta de 1530, quando ainda era apenas uma dama aristocrática da corte. O próprio figurino retratado indicaria isso.
Isso levou alguns historiadores a sugerirem uma hipótese extremamente interessante: a de que o colar com a letra “B” talvez tenha sido reforçado ou até ampliado visualmente nos retratos posteriores como uma forma de identificação imediata da rainha.
Ou seja, o pingente talvez tenha funcionado também como um dispositivo artístico.
Henrique VIII passou anos tentando apagar Ana Bolena da memória inglesa após sua morte. Retratos foram destruídos, brasões removidos e referências públicas à segunda esposa praticamente desapareceram da corte. Nesse contexto, artistas posteriores talvez tenham utilizado o colar como uma espécie de código visual para garantir que Ana continuasse reconhecível mesmo depois de seu apagamento político.
Isso torna a joia ainda mais simbólica.
Porque ela sobreviveu não apenas como objeto, mas como imagem.

O que aconteceu com o colar após a execução?
Após sua execução em 1536, as joias de Ana foram confiscadas pela Coroa e provavelmente desmontadas, reaproveitadas ou derretidas, algo extremamente comum na monarquia Tudor. Como condenada por traição, todos os seus bens retornavam automaticamente ao rei.
O destino exato do colar permanece desconhecido.
Ao longo dos séculos surgiram inúmeras teorias. Uma das mais famosas afirma que apoiadores leais teriam escondido algumas joias de Ana e as entregue futuramente à filha da rainha, Elizabeth I.
Elizabeth I herdou as joias da mãe?
Essa hipótese ganhou força principalmente por causa de um retrato conhecido como The Family of Henry VIII, pintado por volta de 1545. Na obra, Henrique VIII aparece ao lado de Jane Seymour e dos filhos Edward, Mary e Elizabeth. Um detalhe chama atenção há décadas entre historiadores e admiradores da era Tudor: Elizabeth surge usando um delicado colar com a letra “A”.
Muitos acreditam que a joia possa ter pertencido à própria Ana Bolena.
E isso abre uma série de perguntas fascinantes.
Henrique VIII percebeu o detalhe? Permitiu conscientemente que a filha usasse uma joia ligada à mãe executada? Ou o símbolo passou despercebido em um momento em que o rei já estava velho, doente e politicamente distante das disputas emocionais do passado?
Existe ainda outra teoria envolvendo Catherine Parr, última esposa de Henrique VIII, que possuía relação próxima com Elizabeth. Alguns historiadores especulam que Parr poderia ter ajudado discretamente a preservar ou recuperar joias ligadas à memória de Ana para a jovem princesa.
O curador Owen Emmerson, do Hever Castle, acredita que o pingente realmente pertenceu a Ana Bolena e observa que Maria Tudor também aparece no retrato usando joias associadas à própria mãe, sugerindo que ambas as princesas poderiam estar usando peças herdadas maternalmente.
Outra hipótese fascinante envolve a própria Elizabeth I. O historiador Eric Ives acreditava que, em um retrato adolescente da futura rainha, Elizabeth poderia estar usando uma versão remodelada do famoso colar “B” da mãe. O argumento principal está nas três pérolas pendentes, extremamente semelhantes às associadas ao colar de Ana Bolena nos retratos tradicionais.
Nada disso possui comprovação definitiva.
Mas o simples fato dessas hipóteses sobreviverem por séculos mostra como Ana Bolena continua ocupando um espaço singular dentro da imaginação histórica inglesa.

A lenda das pérolas na Coroa britânica
Outra lenda muito popular afirma que as pérolas do colar teriam sido preservadas e posteriormente incorporadas à Imperial State Crown britânica, utilizada nas cerimônias oficiais da monarquia. Novamente, não existe documentação concreta sustentando a teoria, mas ela continua reaparecendo justamente porque conecta Ana Bolena à continuidade da própria Coroa britânica.
O colar como fenômeno cultural contemporâneo
Hoje, o colar também vive uma segunda existência cultural.
Ele aparece constantemente em filmes, séries e releituras sobre os Tudor, de The Tudors a Becoming Elizabeth, além de alimentar um enorme mercado contemporâneo de réplicas históricas. Basta uma gargantilha de pérolas e uma letra “B” dourada para que imediatamente pensemos em Ana Bolena.
A ironia de Henrique VIII
E talvez essa seja a maior ironia de todas.
Henrique VIII tentou destruir sua legitimidade política, sua reputação e até mesmo sua memória visual após o 19 de maio de 1536.
Mas 490 anos depois, Ana Bolena continua reconhecível apenas pelo contorno de um colar.
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