A verdadeira Star City que inspirou a nova série da Apple

Uma das coisas mais fascinantes em Star City e em For All Mankind é perceber como boa parte da ficção se apoia em elementos bastante reais da corrida espacial. A começar pela própria Star City. Isso mesmo, ela não foi inventada pelos roteiristas da Apple. A cidade existiu na União Soviética, sobreviveu ao fim da Guerra Fria e continua em atividade na Rússia até hoje.

Na nova série derivada de For All Mankind, a Apple imagina uma realidade alternativa em que os soviéticos venceram a corrida espacial e acompanha o outro lado da história, dentro do programa espacial da URSS. Mas, curiosamente, o cenário escolhido para ambientar a trama já existia muito antes de qualquer roteirista sonhar com ela.

Conhecida oficialmente como Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin, Star City foi criada em 1960, em uma região florestal a cerca de 40 quilômetros de Moscou, no atual oblast de Moscou. Em russo, ela é chamada de Zvyozdny Gorodok, ou simplesmente “Cidade das Estrelas”. O complexo nasceu em pleno auge da Guerra Fria, quando a União Soviética e os Estados Unidos travavam uma disputa tecnológica, militar e ideológica que se estendia até o espaço.

Durante décadas, Star City foi uma das chamadas cidades fechadas soviéticas. Ela praticamente não aparecia nos mapas e era cercada por rígidas medidas de segurança. O acesso era restrito e, para a maioria dos cidadãos soviéticos, o que acontecia ali era quase tão misterioso quanto as próprias missões espaciais. O local funcionava como uma pequena comunidade isolada, construída para abrigar cosmonautas, cientistas, militares e suas famílias.

Estima-se que atualmente cerca de 6 mil pessoas vivam em Star City. Durante os tempos da União Soviética, o número de moradores variava, mas milhares de pessoas passaram pela cidade ao longo das décadas, entre equipes de apoio, engenheiros, pilotos e familiares dos cosmonautas. A vida cotidiana girava em torno do programa espacial, e praticamente todos os aspectos da comunidade estavam ligados ao Estado.

Foi ali que Yuri Gagarin se preparou para sua histórica viagem de 1961, tornando-se o primeiro homem no espaço. Também treinaram em Star City Valentina Tereshkova, a primeira mulher a deixar a Terra; Alexei Leonov, que realizou a primeira caminhada espacial da história; e praticamente todos os grandes nomes do programa soviético.

A atmosfera retratada em Star City não é totalmente fictícia. A série apresenta um ambiente marcado pela vigilância constante, pela pressão política e pelos segredos de Estado. E há muito de verdade nisso. Os cosmonautas eram tratados como celebridades e símbolos do orgulho nacional, mas também viviam sob enorme controle. A União Soviética via suas conquistas espaciais como uma ferramenta de propaganda e uma demonstração de superioridade diante do Ocidente.

Em For All Mankind, os soviéticos já haviam chegado primeiro à Lua. Agora, a nova produção da Apple aproveita esse universo alternativo para explorar as consequências humanas daquela vitória. Em vez de focar apenas nos feitos tecnológicos, a série mergulha nas relações pessoais, nos sacrifícios e nas tensões de quem vivia por trás dos uniformes.

Essa escolha ganha uma dimensão ainda mais interessante quando se conhece a história verdadeira. Afinal, durante a Guerra Fria, Star City era um mundo à parte. Havia escolas, apartamentos, instalações esportivas e simuladores de voo de última geração, mas tudo acontecia dentro de um ambiente de sigilo e disciplina. A cidade existia para servir ao programa espacial soviético, e seus moradores sabiam que faziam parte de algo maior do que eles próprios.

Após a dissolução da União Soviética em 1991, Star City passou para a Federação Russa e continuou exercendo a mesma função. Mais do que isso: antigos rivais passaram a trabalhar lado a lado. Durante anos, astronautas da NASA treinaram no local para missões conjuntas na Estação Espacial Internacional, transformando um dos símbolos mais emblemáticos da Guerra Fria em um raro exemplo de cooperação internacional.

Talvez seja essa a maior ironia de todas. Por mais fantástica que pareça a premissa de Star City, a cidade das estrelas nunca pertenceu à ficção. Ela sempre esteve lá. E continua existindo, escondida entre as florestas nos arredores de Moscou, como uma lembrança viva de uma época em que a disputa pelo futuro da humanidade passava, literalmente, pelas estrelas.


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