Quem é fã de Ryan Murphy — e eu respeito profundamente o que ele faz — sabia que ele iria viajar. Sabia que aumentaria as proporções, acrescentaria fantasias, transformaria rumores em cenas e preencheria os vazios da História com sexo, sangue, trauma e mulheres em busca de vingança.
É o método dele. Ryan Murphy não entra numa história para reproduzi-la. Entra para descobrir quanto excesso ela suporta.
Embora Monstro: A História de Lizzie Borden tenha sido escrita por Ian Brennan, a assinatura de Murphy está em toda parte: na estética exuberante, no macabro transformado em camp, nos atores trabalhando em registros completamente diferentes e, sobretudo, na necessidade de transformar um crime real numa tese muito contemporânea.
O problema não é a liberdade. É o que a série faz com ela.

Oito episódios para um crime que não os sustenta
A história renderia quatro ou, no máximo, seis episódios. Esticá-la até oito dá vazão para Murphy ser Murphy e fazer suas famosas desviadas. Algumas são interessantes; outras parecem existir porque a produção precisava preencher o tempo entre as machadadas e o julgamento.
Elizabeth Báthory aparece como ancestral simbólica da fúria feminina. Nance O’Neil é transportada para uma época em que ainda não conhecia Lizzie. Aileen Wuornos atravessa a série quase cem anos depois, sem qualquer ligação histórica com o caso. Flashbacks criam passados traumáticos para personagens sobre os quais pouco se sabe.
Muitos críticos perceberam o mesmo problema. Não significa que tudo seja ruim. Significa que a narrativa perde o eixo. Em vez de aprofundar o mistério, a série o abandona para fabricar conexões temáticas cada vez mais óbvias.
Aileen Wuornos: Paulson brilha, mas o desvio continua deslocado
A inclusão de Aileen Wuornos oferece a Sarah Paulson mais uma oportunidade de brilhar. E ela brilha. Sua Aileen é nervosa, imprevisível, física e desconfortável. Paulson entra em cena com tamanha força que imediatamente desperta outra pergunta: por que não fazer uma temporada inteira sobre Aileen?
O problema é que sua participação parece pertencer a outra produção. Não há evidência de que Aileen fosse obcecada por Lizzie, usasse seu nome ou visitasse a casa dos Bordens. A hospedagem mostrada seria impossível: Aileen foi presa em 1991, e a casa somente abriu como pousada em 1996.
A série tenta justificar o encontro como parte de uma linhagem de mulheres violentas: Báthory inspira Bridget, Lizzie inspira Aileen e todas seriam respostas diferentes à repressão masculina. O criador Ian Brennan explicou que pretendia estabelecer uma “herança da fúria feminina”, contrapondo a incredulidade do século 20 diante de uma mulher assassina à condenação de Wuornos um século depois.
Entendo a proposta. Dramaticamente, entretanto, ela continua confusa e fora de contexto. Paulson salva Aileen como personagem. Aileen não salva a série do cheiro de enchimento. Tanto que a recepção à atriz, aliás, foi dividida, alguns a chamando de magnética e muito mais interessante do que a ligação entre as personagens e outros a considerando caricatural. Estou mais próxima da primeira leitura. Paulson pode estar atuando em outra série, mas ao menos é uma série que eu gostaria de assistir.

Lizzie é vítima e, portanto, estaria justificada?
A decisão mais controversa não é declarar Lizzie culpada. É declará-la culpada e, ao mesmo tempo, moralmente justificada.
A série apresenta a jovem como vítima constante da madrasta cruel, do pai controlador, da repressão sexual, da falta de dinheiro e de uma sociedade que não permitia às mulheres qualquer autonomia. Quando o machado finalmente aparece, os assassinatos são filmados menos como crimes do que como libertação.
É uma escolha problemática porque transforma o mistério numa fantasia de vingança. Lizzie foi absolvida, e nunca se provou que tenha cometido os assassinatos. Também não existem evidências para a maior parte dos abusos mostrados. A produção inventa a violência que a justificaria e depois utiliza essa mesma violência inventada para explicar sua culpa.
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A Vulture identificou exatamente essa operação: a temporada elimina qualquer dúvida ao decidir que Lizzie era culpada e estava certa. O Guardian foi ainda mais duro ao acusar a série de trocar uma discussão séria sobre gênero, preconceito jurídico e expectativas sociais por uma exploração quase fetichista de menstruação, sexualidade e violência contra as mulheres.
A intenção é propositalmente “feminista”, mas o olhar nem sempre é. A série quer denunciar como mulheres eram controladas, silenciadas e transformadas em propriedade, mas frequentemente filma seus corpos, sangramentos e sofrimentos com o fascínio de quem acabou de descobrir que mulheres menstruam. Há uma diferença entre representar a experiência feminina e utilizá-la como espetáculo macabro.
A amante que virou “verdade”
A relação entre Lizzie e Bridget já ganhou existência própria na cultura popular. Não é a primeira produção a apresentá-las como amantes. O filme Lizzie, de 2018, com Chloë Sevigny e Kristen Stewart, constrói praticamente a mesma hipótese que já havia aparecido na literatura. De tanto ser repetida, a fantasia começou a adquirir aparência de fato.
Até onde os documentos permitem afirmar, Lizzie e Bridget conviveram como patroa e empregada, mas não há evidência de que tenham mantido um relacionamento amoroso ou sexual. Também não existe prova de que tenham planejado ou cometido os assassinatos juntas.
É possível que Lizzie tenha experimentado algum tipo de repressão sexual. Ela nunca se casou e sua amizade posterior com a atriz Nance O’Neil provocou rumores. Mas não se casar não comprova a orientação sexual de uma mulher, especialmente numa época em que o casamento significava trocar a autoridade do pai pela do marido.
A amizade com Nance oferece mais elementos para especulação do que a convivência com Bridget, mas nem mesmo ali existe prova de romance. Ryan Murphy e Ian Brennan pegam esse espaço vazio e o preenchem.
Não há nada de errado em fazer isso numa ficção assumida. O problema começa quando a encenação é tão categórica que a hipótese passa a funcionar como revelação. A série não diz apenas que poderia ter acontecido. Organiza toda a narrativa para nos convencer de que aconteceu.

Ella Beatty sustenta, mas não transforma Lizzie
Colocar a produção nos ombros de Ella Beatty foi uma decisão arriscada. Sim, ela é filha de Warren Beatty e Annette Bening, parentesco que torna qualquer comparação inevitável, ainda que não seja necessariamente justa.
Beatty consegue sustentar o protagonismo. Tem presença, uma aparência adequada à estranheza de Lizzie e encontra alguma eficácia na passividade inicial da personagem. O problema é que ainda está longe da complexidade dramática exigida pelo papel.
Sua Lizzie permanece presa a poucas expressões: olhos arregalados, voz baixa e entrecortada, boca ligeiramente aberta e uma espécie de perplexidade permanente. A atriz precisa nos fazer acreditar na passagem de uma mulher infantilizada para amante, conspiradora, possível assassina, celebridade criminal e figura mais velha assombrada pelo próprio mito. A transformação acontece no roteiro e na maquiagem, mas raramente dentro da interpretação.
Ela segura o centro. Não cria nuances suficientes para preenchê-lo. De novo, críticos consideraram sua atuação como uma “opacidade indecifrável” que funciona enquanto todos ao redor estão vários decibéis acima do normal, mas também observam que Vicky Krieps é muito mais interessante. Outros foram mais diretos dizendo que Beatty atravessa a série com praticamente uma expressão. Existe talento ali, mas também uma atriz ainda muito nova recebendo um papel que exige décadas de experiência emocional. Ela não compromete a série. Também não consegue dominá-la.
Rebecca Hall, Vicky Krieps e os outros registros
Rebecca Hall está espetacular. Sua Abby é insuportável, cruel, engraçada e patética sem deixar de revelar uma mulher igualmente aprisionada pela mesma estrutura doméstica. Hall entende que não há como sobreviver a um texto tão exagerado buscando naturalismo. Ela abraça o excesso e transforma cada fala numa pequena agressão.

O TheWrap a chamou de verdadeira ladra de cenas e observou que ela interpreta o material mais absurdo como se fosse Shakespeare. É exatamente isso. Hall faz overacting, mas sabe por que está fazendo.
Vicky Krieps oferece o trabalho mais misterioso da temporada. Sua Bridget parece chegar de outro filme e talvez por isso seja tão interessante. Há nela um ar de personagem de romance europeu, alguém que já viveu muito mais do que todos naquela casa. Mesmo quando o roteiro transforma Bridget numa coleção de conveniências — amante, mentora sexual, envenenadora, narradora de Báthory e cúmplice —, Krieps mantém alguma coisa inacessível.
No restante do elenco, a ausência de unidade pesa. Alguns atores investem no camp, outros tentam drama histórico, alguns entregam caricatura e outros parecem pasteurizados. Charlie Hunnam trabalha Andrew num registro tão ostensivo que o personagem chega pronto como vilão, sem contradição. Jessica Barden compreende a artificialidade de Nance O’Neil, mas interpreta uma figura que o roteiro deslocou no tempo apenas para resolver o julgamento.
Não parece que todos estejam na mesma série. Em certos momentos, nem parecem estar no mesmo gênero.


O estranho desaparecimento das músicas
As escolhas musicais inicialmente sugerem que a temporada assumirá uma leitura pop e anacrônica do caso. Kate Bush, The Runaways, Wet Leg, Fiona Apple, Taylor Swift e “Bitter Sweet Symphony” invadem o século 19 para nos lembrar de que não estamos assistindo a uma reconstituição respeitosa.
Algumas escolhas funcionam. Outras parecem sublinhar com marca-texto aquilo que a imagem já explicou. A inclusão de “Cuntology 101”, das Lambrini Girls, durante o envenenamento dos Bordens é tão pouco sutil que praticamente se torna uma piada.
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Meu problema é que essa proposta musical desaparece e reaparece sem lógica. A série inicia como um videoclipe gótico, abandona essa energia por longos períodos e depois recupera as canções quando precisa fabricar movimento. Em vez de criar unidade, a trilha expõe a instabilidade narrativa.
É como se cada bloco tivesse sido imaginado para uma série diferente: romance vitoriano, horror gótico, melodrama sexual, tribunal, sátira camp, manifesto feminista e especial não solicitado sobre Aileen Wuornos.
Ryan Murphy sendo Ryan Murphy
Ainda é cedo para traduzir o que todos acharam da série que foi disponibilizada no dia 17, mas não parece que a franquia Monster esteja conseguindo superar as tantas versões de true crime disponíveis. Ainda assim, respeito Ryan Murphy porque sua ambição permanece visível até que ele perca o controle. Há imagens inesquecíveis, grandes atrizes, humor macabro e uma coragem estética que falta a muitas produções supostamente mais sofisticadas.
O problema é que excesso não substitui profundidade. Anacronismo não substitui análise. E transformar todas as mulheres violentas em elos de uma mesma corrente de fúria pode parecer ousado, mas também reduz histórias completamente diferentes a uma única explicação conveniente.


Monstro começa perguntando quem matou Andrew e Abby Borden. Termina respondendo a outra questão: o que aconteceria se Lizzie fosse transformada na padroeira da raiva feminina?
A resposta é exuberante, sangrenta, sexualmente carregada e, muitas vezes, divertida. Só não é exatamente a história de Lizzie Borden. A fantasia resolve o crime. O mistério era mais interessante.
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