Slow Horses – final de temporada: Lamb salva o dia, mas River fica em risco (Recap)

Spoilers do episódio final da sexta temporada de Slow Horses.

A sexta temporada de Slow Horses chega ao fim com uma fuga desesperada, uma morte dolorosa, uma conversa extraordinária entre pai e filho e uma ameaça que continua agindo quando todos acreditam ter sobrevivido. “Judgment Day” aproveita seus 61 minutos para reunir as tramas que acompanhamos nas últimas semanas. Eu disse que algumas conexões estavam confusas, e estavam mesmo. Mas o balanço é de uma grande temporada, com humor muito britânico, atuações excelentes e um desenvolvimento dos personagens que torna cada nova baixa mais difícil de aceitar.

O episódio começa com Jane num banheiro degradado, reparando sozinha os ferimentos no rosto depois do acidente provocado por Sid. Há sangue, um espelho e música russa. O olhar revela sua determinação sem que seja necessário explicar o desejo de vingança. Ela pega um mapa com um endereço marcado e sai. Para quem acompanhou nossas antecipações dos livros, a ameaça já tinha um peso particular. Para os personagens, Jane ainda é um problema que eles gostariam de considerar encerrado.

Enquanto isso, os agentes do MI5 procuram Sid em campo aberto. River, machucado depois de enfrentar os próprios colegas para permitir que ela escapasse, não oferece a ajuda que esperam dele. Continua protegendo Sid e provoca os homens que o mantêm sob custódia até ser deixado para trás, obrigado a encontrar sozinho o caminho de volta.

Sua primeira providência é telefonar para Lamb. Ele conta que Sid fugiu, explica o que aconteceu no aeroporto e pede ajuda. Lamb reage com a irritação habitual, mas a conversa muda de peso quando River o informa da morte de Coe. Mesmo num homem que raramente oferece uma reação sentimental evidente, a perda aparece. A lembrança das “regras de Moscou” devolve River à necessidade imediata de vigiar as próprias costas.

Diana também já não consegue fingir que tem a situação sob controle. Ao encontrar Lamb, precisa explicar a operação de Kazan, o dinheiro que a financiou e a pressão que passou a sofrer. A tentativa de entregar Sid aos russos fracassou. Agora, ela considera admitir o que fez e deixar o cargo.

É uma excelente introdução ao acerto de contas que esperávamos depois do texto sobre a necessidade de os dois unirem forças. A mulher impecável está dentro do carro nojento de Lamb, confessando que não enxerga uma saída. Ele escuta, faz as conexões e percebe um caminho. Mas Diana terá de ouvi-lo e seguir suas instruções. Gary Oldman e Kristin Scott Thomas exploram a inversão com uma precisão deliciosa: ela tem o cargo, mas naquele momento é ele quem sabe o que fazer.

Lamb identifica a importância de Natasha Carrington, a ligação de Cantor com os interesses russos. A investigação leva até sua casa durante uma festa infantil. Naturalmente, discrição não é a estratégia escolhida. Ele incomoda os seguranças, causa constrangimento e consegue ser recebido. Entre a comida e as atividades da festa, vai tratar de assassinatos e de uma negociação capaz de impedir outros.

A sequência também ajuda a organizar a confusão da temporada. Diana financiou uma operação clandestina com dinheiro cuja origem a comprometeu. Cantor, Natasha e os russos exploraram essa vulnerabilidade, enquanto os arquivos roubados colocaram os pangarés na linha de tiro. A perseguição a Slough House e a operação de Harkness se cruzam, mas os envolvidos não estão todos perseguindo exatamente o mesmo objetivo. É Lamb quem termina de costurar essas linhas para nós.

Na casa de férias de Diana, ninguém está vivendo uma experiência particularmente discreta. Os pangarés comem, ocupam os ambientes e usam as roupas da proprietária. O simples pensamento de Diana vendo aquela situação já sustenta parte da comédia. O problema é que, do lado de fora, Frank Harkness e dois homens se preparam para atacar.

River chega ao esconderijo antes do cerco se completar. Dentro da casa, Shirley está revoltada com a morte de Coe e com a sucessão de perdas. A convivência com Louisa também produz atrito, inclusive por causa dos diamantes que ela guardou depois dos acontecimentos da segunda temporada. Os ressentimentos antigos continuam presentes mesmo quando a urgência deveria obrigar todos a se concentrarem apenas em sobreviver.

O ataque de Harkness acaba com essa discussão. A casa deixa de oferecer proteção, e o grupo foge em direção à praia. A partir daí, a sequência trabalha com pessoas separadas, expostas e tentando improvisar uma defesa contra homens armados.

Roddy carrega Reece e segue com Emma e Shirley. River fica com Catherine, Louisa e Moira, que se machuca durante a fuga. O cenário aberto não representa liberdade: falta onde se esconder, falta equipamento e falta uma maneira segura de pedir ajuda. A perseguição divide a equipe justamente quando seria mais importante permanecerem juntos.

Emma assume a defesa de seu grupo e consegue proteger Roddy, Shirley e Reece, mas é atingida por Harkness e morre. Ela ainda consegue derrubar um dos atacantes. O outro continua a perseguição, e o arpão que Shirley encontra passa a ser a possibilidade de reação. Ela ensina Reece a usá-lo, e é ele quem atinge o segundo homem.

A morte de Emma Flyte é a perda mais dolorosa do episódio. Ruth Bradley vinha desenvolvendo uma personagem que encontrava um espaço cada vez mais interessante ao lado dos pangarés. Sua aproximação com aquele universo preservava a competência e o desconforto de alguém que conhecia o serviço por outro lugar. Depois de Coe, perder também Emma torna a temporada especialmente cruel.

Roddy fica abalado, e Christopher Chung merece destaque. O hacker continua arrogante, inconveniente e incapaz de se enxergar como os outros o veem, mas já não está restrito à função de produzir uma piada. A convivência com Reece e a reação à morte de Emma acrescentam vulnerabilidade ao personagem. É um arco muito interessante porque Chung deixa essa mudança aparecer sem apagar aquilo que faz Roddy ser Roddy.

A ameaça russa chega enquanto o grupo ainda tenta escapar de Harkness. Jane reaparece e atira em Louisa, que consegue voltar até Catherine e Moira, mas está gravemente ferida. River vai atrás da assassina e acaba num novo confronto dentro da casa. Ela o fere na mão, leva vantagem na luta e o joga escada abaixo. Depois de tudo o que ele enfrentou para salvar Sid, parece que a perseguição finalmente vai terminar com sua morte.

Nesse ponto, a ajuda de Lamb ainda precisa alcançar a praia. Catherine consegue contatá-lo, e a intervenção dele conecta as duas frentes do episódio: ao pressionar Cantor, obriga o empresário a mandar Harkness interromper o ataque. Também avisa Diana de que seus agentes precisam de resgate na casa de férias. A engrenagem finalmente começa a funcionar a favor deles.

Harkness, já ferido, volta à casa. Quando Jane desce atrás de River, ele atira nela e a mata. A agente que parecia disposta a continuar a perseguição a qualquer custo encontra seu fim pelas mãos do homem que também estava atacando os pangarés. No meio dessa combinação de interesses, Frank salva a vida do filho. E então vem, para mim, a melhor sequência do episódio: River e Harkness sentados à mesa, conversando.

Jack Lowden e Hugo Weaving encontram uma mistura extraordinária de tensão e humor numa situação em que qualquer tentativa de normalidade já é absurda. Frank trata o que acabou de fazer com uma casualidade desconcertante, enquanto River tenta compreender o limite entre conveniência e alguma coisa que poderia ser um sentimento paterno.

O filho percebe o que importa: Harkness poderia tê-lo matado e não matou. Existe naquele encontro um reconhecimento que pode ser lido até como orgulho, embora isso esteja longe de transformar Frank num pai confiável. Ele acabou de matar Emma. A série mantém essa violência presente enquanto permite que a relação com River revele outra nuance.

É um humor muito britânico, sustentado pelo desconforto, pela maneira como se fala e pelo que ninguém consegue admitir diretamente. Weaving sugere uma relação particular com o filho sem precisar tornar Harkness afetuoso. Lowden sustenta a desconfiança de River, mas também sua dificuldade de encerrar aquela história com um tiro.

Quando o reforço do MI5 se aproxima de helicóptero, River tenta impedir que o pai vá embora. Mas não consegue atirar nele, e Harkness escapa mais uma vez. A conversa termina sem resolver o vínculo. Frank deixa o filho vivo, uma porção de novas perguntas e mais motivos para River desconfiar da história de sua própria família.

Enquanto isso, Diana executa sua parte no plano de Lamb. Ela procura Cantor e faz o empresário acreditar que a situação foi descoberta e que ele precisa sair do país. A possibilidade de os russos saberem como o dinheiro foi usado a apavora. Cantor aceita a fuga oferecida por Diana sem perceber que está entrando em outra armadilha.

Lamb ofereceu a Natasha uma substituição para Sid: Cantor pode ser entregue como o responsável pela operação. O homem que acreditava controlar a chefe do MI5 passa a ser a moeda de troca usada para resolver o problema. A viagem que ele imagina ser sua salvação o coloca no caminho de Vassily.

Diana preserva o cargo, Sid deixa de ser o sacrifício necessário para aquele acordo e Lamb consegue interromper a matança de seus agentes. Ele continua à frente de Slough House, sem promoção ou transformação pública de sua posição. Mas agora Diana lhe deve a sobrevivência profissional.

Essa dívida dá um sabor especial ao desfecho. Ela precisou reconhecer a competência do homem que gostaria de manter à distância e se submeter às suas instruções. A colaboração funciona porque os dois conhecem o trabalho, embora a forma como tratam o custo humano esteja longe de ser equivalente.

Depois da violência, os sobreviventes se reúnem na igreja para homenagear os mortos. Louisa aparece de muleta, confirmando que sobreviveu ao tiro. O alívio é grande, mas a reunião também deixa evidente o tamanho das ausências. A equipe segue mais reduzida, mais sofrida e carregando novas perdas. Louisa, aliás, continua sem desejar uma volta à vida no serviço.

Há um brinde com o uísque de David Cartwright, e por um instante parece possível encerrar o episódio nesse reconhecimento entre os que ficaram. Mas Catherine tem uma mensagem para River: um vizinho do avô avisou que a luz da casa está acesa. River entende o sinal. Sid havia dito que deixaria uma luz para ele. Depois de passar o episódio fora de cena, ela volta a existir na história como a possibilidade de um reencontro. Ele vai até a casa do avô com uma expectativa muito diferente daquela com que chegou ali no início da temporada.

Ao preparar o ambiente, porém, River pega o pé de cabra deixado sobre a bancada. Há uma substância na superfície. Ele esfrega os dedos, percebendo algo estranho, mas o contato já aconteceu. Pouco depois, começa a passar mal, tem convulsões e perde a consciência.

A ameaça remete à passagem anterior de Jim pela casa e ao recipiente que ele manuseou com cuidado. O episódio aponta para um envenenamento por uma substância deixada no objeto. A perseguição continua produzindo consequências mesmo depois da morte dos assassinos.

É um gancho cruel porque River sobreviveu a tanta coisa para ser atingido quando acreditava estar seguro. O lugar associado ao avô e à promessa de encontrar Sid se torna o cenário de uma nova ameaça à sua vida. O final não confirma sua morte: interrompe a história antes de sabermos se alguém conseguirá ajudá-lo.

Quem acompanhou nossos textos sobre River e Sid e sobre os livros já estava preparado para um atentado com consequências graves. A adaptação muda o mecanismo em relação ao romance, mas mantém a pergunta que importa agora: o que essa experiência fará com River, caso ele sobreviva?

A prévia da sétima temporada mantém a tradição da série e se conecta ao que antecipamos sobre Bad Actors, oitavo romance de Mick Herron. James Callis retorna como Claude Whelan, e Diana terá novos problemas. Varada Sethu, Ethan Moorhouse, Tuppence Middleton, Merab Ninidze e Joshua McGuire estão entre os nomes anunciados, como detalhamos no texto sobre o elenco da continuação.

Também já havíamos observado que, no livro, as consequências do atentado afastam River da ação principal. Isso não significa uma saída de Jack Lowden nem determina quanto a televisão poderá mostrar do personagem. Agora, essa informação ganha outro peso diante da última imagem da temporada.

Houve momentos em que custou costurar as tramas paralelas, até Lamb organizar de vez o que cada um queria e quem estava pagando por isso. Ainda assim, foi uma grande temporada. A ação preservou a urgência, o humor apareceu nas situações mais impróprias e os personagens continuaram crescendo. Com uma equipe cada vez mais ferida e reduzida, Slow Horses consegue fazer com que a preocupação com seus pangarés aumente a cada ano. Depois desse final, a espera por River será especialmente difícil.


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