Poucas séries terminaram provocando reações tão divididas quanto Euphoria. Há quem esteja tratando o episódio final como uma obra-prima trágica e quem veja nele a confirmação de todos os problemas que cresceram ao longo das últimas temporadas. Curiosamente, acho que as duas leituras podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
A primeira coisa que precisa ser dita é que Euphoria já não era a mesma série havia muito tempo. A produção que começou como uma adaptação da série israelense criada por Ron Leshem foi, aos poucos, se transformando em algo muito diferente. A partir da segunda temporada e, principalmente, agora na terceira, o que vemos é essencialmente uma obra de Sam Levinson. Para o bem e para o mal.

Visualmente, é difícil negar a ambição do resultado. A fotografia é deslumbrante, a trilha sonora de Hans Zimmer confere uma dimensão quase operística à narrativa e muitas sequências possuem escala e acabamento que lembram cinema, não televisão. Há momentos de enorme força visual, alguns deles entre os mais impressionantes produzidos para uma série nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, também é impossível ignorar que Levinson continua carregando alguns dos problemas que o acompanham desde o início da carreira. Seu olhar sobre as mulheres permanece profundamente marcado pelo male gaze. A sexualização constante, a exploração do sofrimento feminino e a insistência em determinadas imagens não parecem resultado de descuido, mas de uma escolha consciente. Levinson nunca se mostrou interessado em pedir desculpas por isso. Pelo contrário, a sensação é que ele acredita estar apenas mostrando o mundo como ele é, por mais desagradável que isso possa ser.
O problema é que existe uma diferença entre retratar exploração e, por vezes, parecer fascinado por ela.
Ainda assim, o aspecto que mais me interessa em Euphoria nunca foi esse debate, mas a maneira como a série lidou com a dependência química através de Rue Bennett. E é justamente por isso que considero o final muito mais complexo do que parte da discussão nas redes sociais está sugerindo.
Rue não morreu de overdose. Rue foi assassinada e essa diferença é importante.
Álamo sabia exatamente quem ela era. Sabia de seu histórico de dependência. Sabia de sua fragilidade. Sabia que ela estava trabalhando contra seus interesses. Quando entrega a ela uma substância que sabe ser fatal, ele não está apenas colocando drogas em circulação. Está usando o vício dela como arma. Por isso, embora a morte aconteça através de uma overdose, a série trata o ato como um assassinato deliberado.
É um desfecho brutal, mas coerente com algo que Euphoria sempre mostrou. Desde o primeiro episódio, Rue circula por ambientes perigosos, convive com traficantes, armas, dívidas e criminosos violentos. Durante muito tempo, a série permitiu que o público enxergasse esses elementos quase como cenário. Nesta temporada, Levinson finalmente cobra a conta.
A dependência química não destrói apenas a pessoa dependente. Ela a coloca em órbita de indivíduos capazes de explorar sua vulnerabilidade até as últimas consequências.

Nesse sentido, a morte de Rue funciona como uma cautionary tale necessária. Não porque a personagem merecesse aquele destino, mas porque a série jamais fingiu que a recuperação era inevitável. Desde o início sabíamos que Rue era uma personagem vivendo à beira do abismo. O mérito de Levinson e, principalmente, de Zendaya está em fazer com que o público a ame, a odeie, sinta pena dela, se irrite com ela e continue torcendo por ela mesmo quando ela própria já não parece acreditar em si.
Zendaya entrega uma atuação extraordinária. Rue nunca foi uma personagem simpática ou inspiradora. Ela mente, manipula, machuca pessoas e toma decisões terríveis. Ainda assim, permanece profundamente humana. É um dos retratos mais complexos de dependência química já vistos na televisão recente.
O final também funciona como uma homenagem indireta ao legado de Angus Cloud, intérprete de Fezco, cuja ausência paira sobre toda a temporada. A breve lembrança ao ator foi uma das passagens mais emocionantes do episódio e um lembrete de quanto a série mudou desde aqueles primeiros anos.

Mas talvez a discussão mais interessante esteja em Álamo.
Muito se falou sobre Tarantino após a exibição do episódio final. As referências estão ali: os duelos, os monólogos, a violência estilizada, a construção quase mítica da vingança. Só que vejo outra influência igualmente forte e menos comentada: Martin Scorsese.
Há ecos de Taxi Driver, Mean Streets, Goodfellas e tantos outros filmes em diversos momentos da temporada. O problema é que Levinson ainda está muito distante de ser Tarantino ou Scorsese.
Tarantino é um mestre dos diálogos. Consegue transformar uma conversa banal em algo eletrizante. Suas palavras possuem ritmo, ironia, musicalidade e precisão. Levinson, por outro lado, é muito mais forte criando imagens do que construindo diálogos memoráveis.
Scorsese também filma violência, mas quase sempre existe uma reflexão mais profunda sobre culpa, poder, masculinidade, religião ou autodestruição por trás de cada explosão de brutalidade. Em Euphoria, muitas vezes a imagem chega antes da ideia.
Isso não torna a série vazia. Apenas menos profunda do que imagina ser em alguns momentos.
Ainda assim, Álamo é um vilão extremamente eficaz. Não porque seja um gênio do crime ou um psicopata caricatural, mas porque representa alguém que entende perfeitamente dinheiro, violência, manipulação e poder, mas não compreende absolutamente nada sobre afeto.
Ele acredita que todos têm um preço, que o medo resolve qualquer problema e que lealdade pode ser comprada. É justamente aí que ele falha.
Durante toda a temporada, Álamo parece vencer. Ele escapa da polícia. Elimina ameaças. Amplia seus negócios. Controla as pessoas ao seu redor. Mesmo no duelo final, ele joga sujo. Estabelece regras que ele próprio pretende quebrar. Se Bishop não tivesse retirado as munições de sua arma, Ali provavelmente morreria.
Álamo não perde porque é derrotado pela polícia ou porque alguém monta uma armadilha brilhante: perde porque é traído, e essa traição é muito mais interessante do que parece.

Bishop não tem uma crise moral repentina. Ele não acorda decidido a virar herói. Ao longo da temporada, ele convive com Rue. Convive com Maddy. Observa a escalada de crueldade de Álamo. Assiste à transformação de pessoas reais em peças descartáveis de um jogo de poder.
Tenho a impressão de que Rue exerce um papel importante nessa mudança. Não porque exista qualquer romance entre eles, mas porque Bishop a conhecia. Ela não era apenas mais uma usuária. Não era apenas uma funcionária. Era uma jovem perdida tentando sobreviver. Quando Álamo decide matá-la, Bishop sabe exatamente quem está morrendo. O mesmo vale para Maddy.
A relação dele com ela nunca fica completamente explícita, mas existem claramente afeto, cuidado e preocupação. Diferentemente de Álamo, que a enxerga como posse, Bishop parece vê-la como pessoa. Por isso, sua traição funciona tão bem dramaticamente. Ele não está escolhendo entre o crime e a moralidade: está escolhendo entre um homem que destrói tudo ao seu redor e pessoas pelas quais desenvolveu algum grau de empatia.
O resultado é um final que oscila entre a tragédia e a catarse. Rue morre. Ali perde sua filha simbólica, mas Álamo, Laurie e outros caem. Os responsáveis por tanta destruição são derrotados.
Maddy sobrevive, Lexi constrói uma carreira e Jules, quase apagada na temporada, encontra estabilidade, mesmo que de forma tortuosa. Cassie, por mais controverso que seja seu destino, ganha a possibilidade de reconstruir a própria vida sem Nate.
Nada disso é exatamente feliz, mas também não é o niilismo absoluto que muitos críticos estão descrevendo. Talvez seja justamente essa contradição que torne o final tão fascinante. Levinson não oferece esperança para todos, mas também se recusa a entregar um universo completamente sem justiça.
O que fica em aberto é quase tão interessante quanto aquilo que foi encerrado. Bishop assume os negócios? Vai embora? Continua ao lado de Maddy? Cassie e Maddy finalmente rompem de vez ou a relação tóxica entre as duas continuará existindo? O que acontece com esse grupo quando o trauma deixa de ser o centro de suas vidas?
A série não responde. Talvez porque, depois de três temporadas, a única certeza seja que Euphoria nunca esteve realmente interessada em respostas. Ela sempre esteve interessada nas cicatrizes.
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