Até hoje, uma das perguntas mais fascinantes de House of the Dragon continua sendo também uma das mais difíceis de responder. Afinal, quem realmente trai Rhaenyra Targaryen durante a Dança dos Dragões? Ou ela, efetivamente, se torna paranoica e injusta? Há espaço para as duas coisas, pelo menos no livro, mas o apaixonante é acompanhar o desgaste emocional e estratégico de Rhaenyra para ter o Trono de Ferro.
Alguns nomes de seus oponentes são óbvios, mas outros permanecem motivo de debate entre leitores de Fogo & Sangue há anos porque, no livro, existem ainda aqueles que jamais abandonaram a rainha, mas acabaram tratados como traidores em seus momentos mais sombrios. Como a série está mudando alguns fatos e apresentando outras perspectivas, vale revisar a lista (com SPOILERS).

Porque a maior tragédia da guerra civil dos Targaryen é justamente a dúvida: Rhaenyra é efetivamente traída por alguns dos homens e mulheres ao seu redor, mas, conforme as perdas aumentam e a paranoia se instala, ela passa a enxergar inimigos em todos os lugares. E, em alguns casos, essa desconfiança acaba provocando exatamente as traições que ela tanto temia.
Os inimigos de verdade
Alicent Hightower
A relação entre Alicent e Rhaenyra é provavelmente a mais complicada de toda a House of the Dragon, justamente porque a palavra “traição” nunca pertence exclusivamente a um dos lados.
Nos livros, Alicent é mais velha que Rhaenyra e assume quase um papel maternal depois de se casar com Viserys. Com o nascimento de seus próprios filhos, porém, a relação entre madrasta e enteada se deteriora rapidamente, e Alicent passa a defender abertamente que Aegon II deveria herdar o Trono de Ferro.

A série da HBO escolheu um caminho muito mais trágico. Alicent e Rhaenyra começam como melhores amigas, e a primeira grande ferida entre as duas acontece quando Viserys decide se casar com Alicent. Embora a jovem estivesse obedecendo ao pai, ela esconde de Rhaenyra seus encontros com o rei e acaba se tornando a nova rainha. A amizade jamais se recuperaria completamente.
Curiosamente, Alicent inicialmente não é a filha obediente que Otto gostaria. Durante anos, ela hesita em pressionar Viserys para alterar a sucessão e transformar Aegon em herdeiro. É impossível saber se teria conseguido convencer o marido, mas a simples existência de três filhos homens já colocava a posição de Rhaenyra em risco.
Por outro lado, a própria Rhaenyra também contribui para o rompimento definitivo. Sua escapada noturna com Daemon, a perda da virgindade com Ser Criston Cole e, sobretudo, a mentira — ou pelo menos a omissão — diante de Alicent, acabam destruindo a confiança que ainda restava entre as duas. Quando Viserys manda preparar o chá abortivo para a filha e Alicent descobre o ocorrido, ela conclui que foi enganada pela antiga amiga e passa a enxergá-la de maneira completamente diferente.
A partir daquele momento, Alicent decide proteger os interesses dos próprios filhos.

Nos livros, essa decisão é clara e deliberada. Já na série, os roteiristas optam por tornar tudo mais ambíguo. Alicent continua julgando Rhaenyra por aquilo que considera falhas morais, mas também interpreta equivocadamente as últimas palavras de Viserys e acredita estar cumprindo a vontade do marido. Dessa forma, acaba participando diretamente da usurpação do trono, ainda que não exatamente da maneira fria e calculista descrita por George R. R. Martin.
Mas também é impossível ignorar que a própria Rhaenyra contribuiu para destruir a confiança entre as duas. Primeiro vieram as mentiras e omissões da juventude. Depois, já casada com Laenor Velaryon, Rhaenyra continuou desafiando abertamente as convenções de Westeros ao ter três filhos claramente gerados por Ser Harwin Strong, expondo Alicent, seus filhos e toda a corte a uma situação que a rainha consorte considerava uma afronta não apenas moral, mas também política.
Os anos de ressentimento acumulado entre essas duas mulheres transformaram uma amizade genuína em uma relação marcada por mágoas mútuas, promessas quebradas e uma profunda sensação de traição dos dois lados.

E a ironia continua depois da coroação de Aegon II. Assim que o filho assume o poder, Alicent descobre que os homens que ajudou a colocar no comando já não precisam mais dela. Aos poucos, percebe que a disputa que imaginava controlar se transformou em uma guerra civil devastadora. O arrependimento que surge não nasce necessariamente de uma mudança de opinião sobre Rhaenyra, mas da constatação de que as consequências foram muito maiores do que ela havia previsto.
Na segunda temporada, Alicent chega a prometer que entregará Aegon II e Porto Real para impedir mais derramamento de sangue. Mas, assim como aconteceu tantas vezes em sua vida, ela descobre tarde demais que já não controla os acontecimentos.
E, de certa forma, essa acaba sendo mais uma promessa que ela não consegue cumprir. Mais uma traição involuntária em uma relação marcada por amor, ressentimento e decepções mútuas.
Otto Hightower
Muito antes do início da guerra, Otto Hightower já havia decidido que Rhaenyra jamais deveria se sentar no Trono de Ferro. Mesmo depois de Viserys reafirmar repetidamente a filha como herdeira, Otto passou anos construindo alianças e preparando o terreno para que Aegon II fosse coroado. Em muitos sentidos, a guerra civil dos Targaryen começa com a recusa de Otto em aceitar a vontade do rei e sua ganância por colocar sua própria linhagem no trono.

Aegon II Targaryen
No livro, e desculpem que eu sempre volte a ele, Rhaenyra e os irmãos nunca tiveram exatamente uma relação afetuosa. Eles conviveram durante anos, mas a rivalidade existia desde o princípio. Em House of the Dragon, essa dinâmica ganha contornos um pouco mais trágicos. Rhaenyra demonstra ciúmes do nascimento de Aegon II porque entende, corretamente, que o menino seria usado contra ela. Ainda assim, a diferença de idade entre os dois era de cerca de quinze anos, e eles cresceram quase como estranhos. Aegon convivia mais com os sobrinhos do que com a irmã mais velha e, verdade seja dita, parecia desprezar praticamente todos ao redor.
A versão da série é muito mais interessante do que a apresentada em Fogo & Sangue. Durante boa parte da juventude, Aegon não demonstra qualquer interesse pelo trono que Otto Hightower, Alicent e tantos outros insistiam ser seu por direito. Ao contrário. Cresce sob a sombra da rejeição do pai, que jamais escondeu a preferência por Rhaenyra, e sob a educação rígida e repressora da mãe. O resultado é um jovem profundamente infeliz, entregue à bebida, cercado de filhos bastardos e acusado de abusar de mulheres a serviço da corte. E, mesmo assim, continua sem demonstrar qualquer desejo real de governar.

Tudo muda com a morte de Viserys. Convencido por Alicent de que o pai teria mudado de ideia em seus últimos momentos e acreditando estar apenas cumprindo a vontade do rei, Aegon aceita a coroa e reivindica para si o Trono de Ferro. É a partir desse momento que se transforma no principal rival da meia-irmã e na figura em torno da qual toda a guerra passa a girar.
Mas talvez seja justamente por isso que a palavra “traição” seja mais complicada quando se trata de Aegon II. Do ponto de vista de Rhaenyra, não há dúvida de que o irmão roubou aquilo que sempre lhe pertenceu por direito e destruiu a família Targaryen ao aceitar uma coroa que não era sua.
Já do ponto de vista de Aegon, a história é diferente. Criado desde a infância para acreditar que era o herdeiro legítimo, convencido pela mãe de que Viserys havia mudado de ideia e cercado por homens que lhe diziam que sua própria sobrevivência dependia de se tornar rei, Aegon provavelmente nunca se viu como um traidor.
Talvez por isso a relação entre os dois seja tão fascinante. Porque, mais do que em qualquer outro caso da Dança dos Dragões, a resposta depende inteiramente de qual lado da história se escolhe contar.
Aemond Targaryen
Se Aegon representa a guerra, Aemond representa a destruição definitiva de qualquer esperança de reconciliação. Ainda mais do que no livro, House of the Dragon transformou o segundo filho de Alicent em uma figura ao mesmo tempo fascinante e profundamente perturbadora, permitindo ao espectador acompanhar como esse monstro foi sendo construído ao longo dos anos.
Criado sem qualquer sentimento positivo em relação à irmã mais velha e menos ainda aos sobrinhos, cuja bastardia era motivo de desprezo dentro dos Verdes, Aemond jamais foi uma peça importante na sucessão. Mas talvez tenha sido aquele que mais se preparou para governar. Mais disciplinado do que Aegon, mais estudioso e mais dedicado às artes da guerra, ele sonhava com a coroa mais do que o irmão e, em certos momentos, até mais do que a própria Rhaenyra.

O problema é que, ignorado pelo pai e frequentemente negligenciado pela mãe, Aemond cresceu carregando inúmeros complexos. O principal deles era a humilhação de não possuir um dragão enquanto praticamente todos ao seu redor tinham. A situação muda quando ele reivindica Vhagar, o mais poderoso dragão vivo de Westeros. O que deveria ser o momento mais feliz de sua vida rapidamente se transforma em uma tragédia. Afinal, para Baela e Rhaella, Vhagar pertencia por direito à memória de Laena Velaryon. A discussão entre primos e sobrinhos escala para a violência e termina com Aemond perdendo um olho. Em troca, porém, ele ganha algo muito mais perigoso: o dragão mais letal de Westeros.
E, como Viserys havia alertado tantas vezes, a ideia de que os Targaryen controlam seus dragões é uma ilusão. O enorme poder conquistado por Aemond logo se revela uma ameaça para todos ao seu redor. A morte de Lucerys Velaryon em Ponta Tempestade transforma uma disputa política em uma guerra sangrenta e irreversível. Acidental ou não, a morte do filho de Rhaenyra é sentida pela rainha nas entranhas. A partir daquele instante, ela não quer mais negociações ou acordos. Ela quer a cabeça do irmão.
Na segunda temporada, House of the Dragon torna Aemond ainda mais sombrio do que sua contraparte literária. Ao assumir o controle dos Verdes e tentar matar o próprio irmão, ele deixa claro que sua disposição para trair não se limita aos inimigos. Aemond acaba traindo Aegon, Alicent e praticamente todos ao seu redor em nome daquilo que acredita ser seu dever e seu direito.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores ironias do personagem. Porque, do ponto de vista de Rhaenyra, Aemond é um traidor monstruoso, responsável pela morte de Luke e por boa parte da destruição que se seguiria. Mas, do ponto de vista do próprio Aemond, traição é uma palavra que simplesmente não existe. Para ele, tudo o que faz é necessário. Tudo o que faz é sua obrigação. E tudo o que faz é, acima de qualquer coisa, aquilo que acredita ser seu direito.
Sor Criston Cole
Antigo protetor de Rhaenyra e, na série, também seu amante, Criston Cole se transforma em um dos homens mais importantes do partido dos Verdes. Não é por acaso que a história se lembraria dele como o Fazedor de Reis. Poucas traições possuem uma dimensão tão pessoal.
O próprio Fabien Frankel costuma brincar que House of the Dragon parece empenhada em expor todos os defeitos de Criston Cole. Sua raiva, seu orgulho ferido, seu ressentimento e o papel que desempenha na construção do ódio entre irmãos e sobrinhos estão entre os elementos mais explorados pela série.
E existe uma ironia curiosa em tudo isso. Entre todos os homens de Westeros, talvez Criston fosse um dos poucos que jamais tiveram dúvidas de que Rhaenyra era a escolhida de Viserys. Afinal, foi ele quem a acompanhou na caçada em que o lendário cervo branco apareceu para a princesa, símbolo interpretado por muitos como uma confirmação divina de sua legitimidade.

Mais do que isso, Criston era praticamente inseparável de Rhaenyra. Meio apaixonado, meio seduzido pela proximidade com a futura rainha, ele acaba cedendo aos avanços da princesa e quebra seus votos da Guarda Real. Consumido pela culpa, tenta transformar aquela única noite em uma história de amor. Na visão dele, os dois poderiam fugir de King’s Landing, abandonar a sucessão e viver uma vida simples, feliz e distante das obrigações da corte.
Rhaenyra, no entanto, rejeita a proposta sem hesitação. Ela escolhe permanecer herdeira do Trono de Ferro, casa-se com Laenor Velaryon por conveniência política e, mais tarde, vive abertamente uma relação com Harwin Strong. Aos olhos de Criston, não foi apenas seu amor que foi rejeitado. Foi o sacrifício que ele acreditava ter feito por ela.
Talvez seja justamente por isso que a transformação de Criston Cole seja tão amarga. Ferido pelo orgulho, consumido pelo ciúme e pela inveja, ele passa a aproveitar toda oportunidade possível para humilhar, enfraquecer e prejudicar Rhaenyra. O homem que um dia jurou protegê-la se torna um dos principais responsáveis pela coroação de Aegon II e pelo fortalecimento dos Verdes.
Se Otto Hightower representa a ambição e Alicent representa as mágoas acumuladas de uma amizade destruída, Criston Cole personifica algo muito mais simples e humano: o ressentimento.

E, pelo menos na versão da HBO, tudo indica que sua participação nas tragédias da Dança dos Dragões será ainda maior do que aquela descrita nas páginas de Fogo & Sangue.
Confesso que, neste caso, é difícil sentir pena dele.
Larys Strong
Aqui está o maior inimigo de Rhaenyra Targaryen e, ironicamente, ela talvez nunca tenha percebido isso. Ao contrário de Otto Hightower, Criston Cole ou Aemond Targaryen, Ser Larys Strong jamais levanta uma espada contra a rainha. Seu campo de batalha sempre foi outro: os corredores escuros, os segredos e as fraquezas das pessoas ao seu redor.
Irmão de Harwin Strong, amante de Rhaenyra e filho de Lyonel Strong, a Mão do Rei, Larys nunca demonstra lealdade verdadeira a ninguém além de si mesmo. Manipulador e oportunista, adapta-se a qualquer cenário político e faz da sobrevivência sua única causa. Sua traição é permanente porque nunca pertence de fato a lado algum.

Desde cedo, é através dele que Alicent descobre as mentiras e omissões de Rhaenyra. É também graças ao acesso privilegiado que possui, através do pai e do irmão, que Larys conhece os segredos da futura rainha. Mas, em uma demonstração de crueldade que define toda a sua trajetória, ele manda assassinar justamente os dois homens que deveriam ser mais próximos dele. A morte de Lyonel e Harwin Strong não apenas elimina rivais políticos, mas priva Rhaenyra de um importante aliado e do homem que ela amava.
Subestimado desde a infância por causa de sua deficiência física, Larys aprende a transformar aquilo que os outros enxergam como fraqueza em uma arma. Ignorado por muitos e considerado inofensivo por outros, ele se revela um dos homens mais perigosos de Westeros.
Sua influência tampouco termina com a ascensão de Aegon II. Depois que o rei é gravemente ferido e abandonado por praticamente todos ao seu redor, incluindo a própria mãe e o irmão, é Larys quem garante sua fuga. Ao fazer isso, trai não apenas Rhaenyra, mas também Alicent, os Verdes e qualquer ideia de lealdade tradicional.

E suas traições estão longe de terminar ali.
Nos anos seguintes, Larys continuará espalhando desconfiança, manipulando pessoas e contribuindo para aprofundar as divisões dentro da corte e do reino. Seu talento para transformar rumores em armas e segredos em poder ajudará a consolidar a péssima reputação que cercará Rhaenyra por gerações. Indiretamente, suas ações também contribuirão para a morte de inúmeros inocentes e para a perpetuação das feridas abertas pela Dança dos Dragões.
Ser Larys Strong trai simplesmente porque é isso que sabe fazer. Traidor, no caso dele, é praticamente nome e sobrenome.
Borros Baratheon
A Casa Baratheon havia jurado lealdade a Rhaenyra décadas antes da guerra. Mas, quando chegou a hora de honrar essa promessa, Borros Baratheon escolheu o lado dos Verdes em troca de vantagens políticas e alianças matrimoniais. A decisão representa mais uma quebra de juramento em uma guerra construída sobre promessas esquecidas.
Nos livros, Rhaenyra e Borros jamais tiveram uma relação próxima, mas o apoio dos Baratheon era algo que a princesa tinha motivos para considerar garantido. Afinal, seu pai, Lorde Boremund Baratheon, fora um dos mais fervorosos defensores da reivindicação da sobrinha durante o Grande Conselho de 101 e permaneceu leal a Viserys e à filha dele até a morte. O filho, porém, se mostrou muito mais pragmático.

Quando Lucerys Velaryon chega a Ponta Tempestade como emissário dos Negros, encontra um Borros Baratheon pouco interessado em antigas promessas e muito mais disposto a negociar o futuro da própria casa. Enquanto os Verdes lhe oferecem uma aliança matrimonial, Luke não tem nada além de uma carta e da expectativa de que um juramento feito décadas antes ainda tenha algum valor.
A recepção não poderia ter sido mais humilhante. Borros dispensa o jovem príncipe diante de toda a corte e permite que Aemond Targaryen transforme a visita diplomática em um acerto de contas pessoal. Embora tenha se recusado a derramar sangue sob seu teto, o senhor de Ponta Tempestade nada faz para impedir que o tio persiga o sobrinho pelos céus.
E foi essa omissão que mudou a história dos Sete Reinos.

Porque a morte de Lucerys em Ponta Tempestade não representa apenas o fim de um menino. Ela destrói qualquer esperança de reconciliação entre os dois lados da família e mergulha Westeros em uma guerra sem volta. Para Rhaenyra, trata-se da traição mais traumática dos primeiros meses do conflito. Seu filho havia partido como mensageiro sob a proteção das leis da hospitalidade e jamais voltou para casa.
É verdade que Aemond foi quem matou Luke. Mas Borros Baratheon criou as condições para que aquilo acontecesse. E, ao escolher ignorar um juramento antigo e fechar os olhos para o ódio crescente entre tio e sobrinho, acabou desempenhando um papel decisivo em uma das tragédias mais dolorosas de toda a Dança dos Dragões.
Hugh Martelo
Entre todos os nomes associados à palavra traição, nenhum é mais famoso do que Hugh Martelo. Inicialmente aliado dos Negros, ele reivindica Vermithor e se torna uma das mais poderosas Sementes de Dragão. Sua mudança de lado é tão marcante que, ao lado de Ulf, o Branco, entraria para a história simplesmente como um dos Dois Traidores.
Nos livros de George R. R. Martin, o enorme poder conquistado por Hugh desperta sua ambição. Bastardo de origem humilde, ele passa a acreditar que o sangue do dragão corria em suas veias tanto quanto nas de Rhaenyra ou Aegon II e conclui que talvez fosse mais digno da coroa do que ambos.

House of the Dragon, porém, parece determinada a tornar essa trajetória mais complexa. Antes mesmo de se tornar cavaleiro de dragão, Hugh é apresentado como um homem comum, esmagado pela guerra travada pelos poderosos. A falta de comida e de remédios destrói sua família, e tudo indica que sua esposa acabará sendo mais uma vítima inocente do conflito. É difícil imaginar que essa sucessão de tragédias não influencie suas escolhas.
Revoltado com os Pretos e convencido de que os Targaryen estão sacrificando milhares de vidas por uma disputa familiar, Hugh abandona Rhaenyra durante a Primeira Batalha de Tumbleton e se junta aos Verdes, provocando uma das derrotas mais significativas sofridas pela rainha. A deserção muda o rumo da guerra e destrói parte da vantagem conquistada pelos Negros com as Sementes de Dragão.
Mas a traição não termina ali.
Uma vez do outro lado, Hugh começa a sonhar com algo ainda maior. Sua arrogância cresce a tal ponto que ele passa a usar uma coroa negra e se comportar como se estivesse destinado a se tornar rei. O homem que inicialmente poderia ser visto como uma vítima da guerra acaba sendo consumido pelo mesmo desejo de poder que destruiu os Targaryen.
É possível que House of the Dragon transforme Hugh Martelo em uma figura mais trágica do que aquela descrita nas páginas de Fogo & Sangue. Mas isso não muda a essência de sua história.

Hugh pode ser um traidor trágico, mas continua sendo um traidor. E, ironicamente, o maior estrago provocado por suas ações talvez não seja a derrota em Tumbleton. A deserção de Hugh e Ulf destrói a confiança de Rhaenyra em todas as Sementes de Dragão, mergulhando a rainha em uma paranoia que acabaria produzindo consequências ainda mais devastadoras. De certa forma, Hugh Martelo começa a destruir Rhaenyra muito antes de Sunfyre terminar o trabalho.
Ulf, o Branco
Detestável tanto nas páginas quanto na tela, Ulf, o Branco, surgiu em House of the Dragon como um daqueles personagens que parecem carregar a palavra “traidor” escrita em cada fala, gesto e decisão. Falastrão, preguiçoso e convencido, ele jamais escondeu que sua lealdade tinha preço.
Montador de Asaprata, Ulf acompanha Hugh Martelo na mudança de lado durante a Primeira Batalha de Tumbleton. Em teoria, suas motivações são menos grandiosas do que as do companheiro. Enquanto Hugh passa a sonhar com o Trono de Ferro, Ulf parece movido principalmente pelo ressentimento, pela bebida e pela convicção de que merecia ser recompensado por seus serviços.
Como tantos personagens da Dança dos Dragões, Ulf acreditava que a guerra finalmente lhe proporcionaria riqueza, prestígio e uma vida melhor. Quando percebe que as promessas dos Pretos não se traduzem exatamente naquilo que imaginava, sua lealdade desaparece com uma facilidade impressionante.

Ao lado de Hugh, ele participa da destruição de Tumbleton e ajuda a provocar uma das derrotas mais devastadoras sofridas por Rhaenyra. Os dois homens mudam o rumo da guerra e, mais importante, destroem a confiança da rainha nas próprias Sementes de Dragão.
Juntos, Hugh Martelo e Ulf, o Branco, entrariam para a história com um título que dispensa maiores explicações: os Dois Traidores. Francamente? Neste caso, nem é preciso elaborar muito.
Sor Alfred Broome
Taí um personagem que muitos espectadores de House of the Dragon ignoraram, mas que desde cedo demonstra uma impressionante facilidade para mudar de lado. Durante boa parte da segunda temporada, Sor Alfred Broome se apresenta como um fiel apoiador de Rhaenyra. No entanto, quando recebe a missão de trazer Daemon de volta de Harrenhal, rapidamente deixa escapar suas verdadeiras convicções.
Ao encontrar o príncipe, Broome não tenta convencê-lo a retornar para Pedra do Dragão. Pelo contrário. Convencido de que uma mulher não pode governar e acreditando que Daemon seria uma escolha mais adequada, ele praticamente o incentiva a tomar a coroa para si. Em outras palavras, trai Rhaenyra antes mesmo de chegar ao destino de sua missão.

Só que seus cálculos se mostram um desastre.
Quando Rhaenyra vai pessoalmente a Harrenhal e Daemon, transformado pelas visões e pela influência de Alys Rivers, finalmente abandona qualquer ambição de reinar, Broome se vê em uma posição profundamente constrangedora. Depois de dizer em voz alta aquilo que jamais deveria ter dito, ele assiste, impotente, ao príncipe dobrar o joelho para a esposa e renovar sua lealdade aos Negros. Na série, a vergonha é tão evidente que Alfred é visto se retirando discretamente enquanto todos os demais juram fidelidade à rainha.
Nos livros, seu ressentimento assume uma forma ainda mais perigosa. Convencido de que nunca recebeu o prestígio e as recompensas que julgava merecer, Broome passa a alimentar um rancor crescente contra Rhaenyra. E é justamente por isso que sua traição se torna tão devastadora.

Quando a rainha perde Porto Real e retorna à Pedra do Dragão acreditando ter encontrado um último refúgio, descobre tarde demais que Alfred Broome já havia escolhido outro lado. É ele quem elimina seus últimos defensores e entrega a própria Rhaenyra a Aegon II.
Em uma guerra marcada por traições espetaculares, dragões e batalhas sangrentas, a de Alfred Broome é quase banal em sua origem. Não nasce do amor, nem da ambição desmedida, muito menos do ressentimento romântico. Nasce do orgulho ferido de um homem medíocre que acreditava merecer mais. Justamente por isso que sua traição é uma das mais decisivas de toda a Dança dos Dragões. Alfred Broome não apenas trai Rhaenyra: ele é o último homem a fazê-lo. É a última traição da rainha que acaba sendo também a que a conduz diretamente à morte.
Tyland Lannister
Tyland merece um lugar de destaque. Membro do Conselho de Viserys e Mestre da Moeda, ele participa diretamente da conspiração que coloca Aegon II no Trono de Ferro. Mais importante, ajuda a esconder e espalhar o tesouro da Coroa antes da chegada de Rhaenyra a Porto Real.
Essa decisão é fundamental. Quando finalmente conquista a capital, Rhaenyra descobre que herdou um trono praticamente sem dinheiro. A falta de recursos a obriga a aumentar impostos, aliena a população e contribui para o colapso de seu governo.
Tyland jamais demonstrou qualquer simpatia pela reivindicação da princesa. Sua traição é calculada, inteligente e extremamente eficaz. Ironicamente, porém, ele acabaria sendo um dos poucos Verdes a conquistar o respeito até dos inimigos, tornando-se Mão do Rei no reinado de Aegon III.

Jason Lannister
Jason é bem mais simples. Senhor de Rochedo Casterly e gêmeo de Tyland, ele representa desde o início a oposição aberta a Rhaenyra. Ainda na vida de Viserys, deixa claro que acredita que Aegon deveria suceder ao pai e jamais esconde seu desconforto com a ideia de uma mulher no Trono de Ferro. Não ajuda o fato de que foi um dos pretendentes rejeitados por Rhaenyra. Mas a Casa Lannister jurou aceitá-la como herdeira, então não cumprir o juramento é traição.
Durante a guerra, coloca toda a força do Oeste a serviço dos Verdes. E vai pagar caro por isso.
Mysaria
Se alguém ainda tinha dúvidas sobre quanto Mysaria merece confiança, provavelmente é porque não leu Fogo & Sangue ou esqueceu a primeira temporada de House of the Dragon. Muito antes de ser poupada por Rhaenyra e conquistar a confiança da rainha, Mysaria já havia traído mais de uma pessoa. Daemon Targaryen inclusive.
Uma das figuras mais ambíguas de toda a Dança dos Dragões, Mysaria é espiã, amante, agente dupla, conselheira e, acima de tudo, uma sobrevivente. Sua verdadeira lealdade nunca pertenceu aos Pretos, aos Verdes ou aos Targaryen. Sempre pertenceu a Mysaria.

É ela quem leva a Otto Hightower a história de que Daemon teria brindado à morte de Baelon, filho recém-nascido de Viserys e Aemma Arryn. Nunca vemos isso acontecer diretamente na série, tampouco os livros confirmam o episódio. Conhecemos apenas o relato do que teria sido dito. Ainda assim, a informação é suficiente para provocar mais uma ruptura entre os irmãos, levar ao novo exílio de Daemon e, ironicamente, fortalecer a posição de Rhaenyra como herdeira, algo que Otto Hightower sempre acreditou ser temporário.
Mais tarde, Mysaria volta a servir aos interesses dos Verdes ao ajudar Otto na busca por Aegon II após a morte de Viserys. Como Varys, séculos depois, ela costuma justificar suas ações dizendo agir em nome do povo, mas a verdade é que Mysaria parece sempre escolher o lado que melhor garante sua sobrevivência.
Por um erro de avaliação de Daemon, que jamais esclarece para Rhaenyra o quão perigosa a antiga amante pode ser e permanece afastado em Harrenhal durante boa parte da guerra, Mysaria acaba se aproximando cada vez mais da rainha. House of the Dragon levou essa relação ainda mais longe ao acrescentar um beijo entre as duas mulheres, tornando a ligação emocional e física ainda mais intensa e reforçando o quanto Mysaria pode ser sedutora, influente e perigosa.
E é justamente quando todos parecem suspeitos que ela se torna uma das pessoas mais próximas de Rhaenyra. Talvez próxima demais.

Diversos relatos em Fogo & Sangue sugerem que Mysaria ajudou a alimentar as suspeitas da rainha em relação a Nettles e contribuiu diretamente para a paranoia que acabaria destruindo o Conselho Negro. Se Hugh Martelo e Ulf, o Branco, quebraram a confiança de Rhaenyra em seus aliados, Mysaria pode ter sido a voz que transformou essa desconfiança em obsessão.
Como quase tudo envolvendo Mysaria, a verdade permanece envolta em sombras. George R. R. Martin nunca oferece respostas definitivas, mas, francamente, tenho dificuldade em acreditar que House of the Dragon escolherá a sutileza. Pelo contrário. Suspeito que a série tornará muito mais explícita a influência destrutiva que Mysaria exerce sobre a rainha.
Por isso, não tenho dúvidas em incluí-la entre os traidores de Rhaenyra.
Quem Rhaenyra considera traidores
Addam Velaryon
Addam já entrou na vida de Rhaenyra, na TV, diferentemente do livro. Ele é escolhido pelo dragão de Laenor, o que tanto revela que provavelmente ela é viúva (na série ele forja a morte e foge) e apenas quando Rhaenyra o confronta e o traz para Pedra do Dragão é que é revelado que ele é filho bastardo de Ser Corlys Velaryon.
Se há um exemplo claro da paranoia de Rhaenyra, que acredito que será alimentada por Mysaria, é Addam. Tudo será relativamente rápido: depois da deserção de Hugh Martelo e Ulf, a rainha passa a desconfiar de que todos os bastardos montadores de dragões farão o mesmo, por isso ordena a prisão dele. A suspeita, no entanto, era completamente injusta.

Enquanto Rhaenyra acreditava estar eliminando um futuro traidor, Addam reunia homens nas Terras Fluviais para salvar sua causa. Ele morreria combatendo os verdadeiros traidores em Tumbleton. Sua tumba carregaria apenas uma palavra.
“Leal.”
Nettles
Essa é uma importante personagem eliminada na série, cuja parte da trama passa para Rhaella, filha de Daemon. Portanto, a traição da jovem que, nos livros, Rhaenyra acredita ser amante de Daemon, é provocada pelo ciúme e pela paranoia. Agora fica uma dúvida sobre como agirá porque ela ordena a morte da jovem, chamando-a de feiticeira e traidora. Mas George R. R. Martin jamais oferece provas de que Nettles tenha traído a rainha.
Falarei mais sobre o que pode acontecer quando falar de Rhaella.
Os personagens que acabam traindo Rhaenyra por causa de suas próprias decisões
Daemon Targaryen
Daemon Targaryen talvez seja o caso mais complexo de todos. Durante boa parte de House of the Dragon, a impressão é que, entre Verdes e Negros, Daemon era simplesmente vermelho. Ou, mais precisamente, que sempre esteve do lado de Daemon. Mesmo que a terceira temporada deva mostrá-lo assumindo plenamente o papel de general e consorte, isso não apaga uma longa sequência de traições anteriores.

Na primeira temporada, consumido pela inveja e pelo ressentimento por ter sido preterido na sucessão em favor de Rhaenyra, suas intenções na famosa noite do prostíbulo permanecem ambíguas. Ao seduzir a sobrinha e levá-la para um local público, Daemon coloca em risco sua reputação e seu futuro. Mesmo desistindo de consumar a relação, quando confrontado por Viserys, deixa que o irmão acredite no pior. A mentira, ou pelo menos a omissão, representa uma profunda traição à sobrinha. É verdade que Daemon pede a mão de Rhaenyra, mas Viserys interpreta corretamente que o pedido pode ser motivado tanto por desejo quanto por ambição. Teria sido muito mais fácil se a história terminasse ali.
Mas não termina.
Já casado com Rhaenyra, Daemon continua sendo incapaz de aceitar que a esposa governe da maneira dela. Ele a ignora durante o parto de Visenya, a agride fisicamente quando ela se recusa a seguir seus planos e, mais tarde, desaparece para Harrenhal, reunindo um exército em seu próprio nome e não no dela. Durante meses, sequer responde às mensagens enviadas por Pedra do Dragão. Em qualquer casamento comum, isso já seria considerado uma traição. Em uma guerra civil, é quase uma rebelião.

É verdade que a segunda temporada termina com uma aparente reconciliação. Transformado pelas visões e pela influência de Alys Rivers, Daemon finalmente parece compreender que não é o protagonista da profecia e renova sua lealdade à esposa. Tudo indica que veremos uma versão mais disciplinada e mais comprometida com a causa dos pretos nas batalhas que virão.
Mas é justamente aí que entramos em território minado, porque, sem Nettles, House of the Dragon precisará reinventar a última grande controvérsia envolvendo Daemon Targaryen.
Nos livros, quando Rhaenyra ordena a morte de Nettles, convencida de que a jovem é amante do marido e uma traidora em potencial, Daemon escolhe desobedecer à esposa. Em vez de cumprir a ordem, ajuda Nettles a escapar e parte sozinho para o confronto final contra Aemond. Para muitos leitores, trata-se de uma última demonstração de honra. Para outros, Daemon simplesmente se recusa a participar de uma injustiça.

Nunca consegui enxergar redenção em Daemon. Inclusive, na minha leitura, ele trai Rhaenyra duas vezes! Primeiro, ao salvar Nettles e colocar a jovem acima da autoridade da própria rainha. Depois, ao se lançar para a morte sobre o Olho dos Deuses, abandonando a esposa justamente quando ela mais precisava dele, mesmo matando Aemond. E, para aqueles que acreditam que Daemon sobreviveu e fugiu com Nettles para viver uma vida anônima, a conclusão é ainda mais cruel. Afinal, como não chamar isso de traição?
Talvez seja justamente por isso que a ausência de Nettles na série seja tão interessante.
Com Rhaella aparentemente herdando boa parte da trama da jovem montadora de Sheepstealer, tudo indica que Daemon será colocado diante de uma escolha diferente. Em vez de optar entre a esposa e uma amante mais jovem, ele terá que escolher entre Rhaenyra e a própria filha. E não tenho dúvidas sobre qual será sua decisão. Quando esse momento chegar, Daemon voltará a trair Rhaenyra, mas, desta vez, a traição terá outro significado. Não será a fuga egoísta de um homem envelhecido atrás de uma última paixão. Será a escolha de um pai que finalmente aprende a amar uma filha que ignorou durante anos. É uma regeneração.
Francamente, é uma opção que me parece muito mais digna do que a ideia de abandonar a esposa para viver nas montanhas com uma amante enquanto Rhaenyra caminha, sozinha, para o encontro com os próprios inimigos. Talvez seja por isso que Daemon continue sendo o personagem mais fascinante de toda a Dança dos Dragões, porque ele nunca foi de nenhum dos lados. Daemon Targaryen sempre pertenceu apenas a Daemon Targaryen.

Ser Corlys Velaryon
Talvez nenhuma história seja tão trágica quanto a de Lorde Corlys Velaryon. Durante décadas, a Serpente Marinha foi um dos mais importantes aliados de Rhaenyra Targaryen, embora House of the Dragon tenha optado por retratá-la de forma mais hesitante e pragmática do que nos livros de George R. R. Martin.
E isso faz sentido. Porque, por mais que Corlys amasse Rhaenys, é impossível ignorar que ele sempre desejou a coroa. O casamento com a Rainha que Nunca Foi foi uma união por amor, mas também entre duas pessoas que acreditavam que ela, como filha do herdeiro, deveria suceder a Jaehaerys. Quando Rhaenys foi rejeitada por ser mulher, Corlys imediatamente passou a defender os direitos de Laenor. O Grande Conselho escolheu Viserys.

Anos mais tarde, quando Viserys ficou viúvo, Corlys e Rhaenys não hesitaram em oferecer Laena, então uma menina de apenas sete anos, em casamento ao rei de quarenta e sete. E, mesmo depois da rejeição, a relação entre a Casa Velaryon e a Coroa só voltou aos trilhos quando Rhaenyra se casou com Laenor e os futuros reis continuariam carregando o nome Velaryon.
Por isso, é difícil argumentar que Corlys fosse movido exclusivamente por convicção na causa dos Pretos. Como tantos outros grandes senhores, ele era também um homem ambicioso, determinado a ver sua linhagem próxima do Trono de Ferro.
Mas a guerra acabaria lhe impondo uma escolha muito mais dolorosa.
Sem os filhos legítimos e com a bênção de Rhaenys para acolher os bastardos como parte da família, Corlys acaba encontrando em Addam Velaryon um herdeiro inesperado. Quando Rhaenyra o legitima e o nomeia sucessor da Casa Velaryon, Addam deixa de ser apenas um aliado ou um cavaleiro de dragão; ele se torna família.
Por isso, quando a rainha, consumida pela paranoia após a traição de Hugh Martelo e Ulf, o Branco, ordena a prisão de Addam, Corlys se vê diante de uma escolha impossível. Porque, paranoica ou não, certa ou errada, era uma ordem, e ele escolhe desobedecê-la. Incapaz de assistir à execução do rapaz que considerava seu filho, Corlys ajuda Addam a fugir.
É claro que, ao descobrir a fuga, Rhaenyra manda prender a Serpente Marinha por alta traição. E, sob um ponto de vista estritamente legal, ela não estava errada. Corlys havia desobedecido sua rainha, mas é justamente aí que algo se rompe para sempre.

A partir daquele momento, Corlys realmente abandona Rhaenyra. A confiança desaparece, a frota Velaryon deixa de sustentar a guerra e King’s Landing mergulha em um caos do qual jamais se recuperaria.
E é aqui que George R. R. Martin produz uma de suas ironias mais cruéis. Addam Velaryon jamais trai Rhaenyra, mas a falsa convicção de que ele a trairia acaba produzindo uma traição verdadeira. E fatal porque Rhaenyra acaba perdendo um homem que morreria lutando por ela e outro que a sustentara por décadas.
Corlys realmente trai Rhaenyra, mas por amor. E talvez seja justamente isso que torne sua traição a mais triste de toda a Dança dos Dragões.
Os possíveis “traidores” da adaptação da HBO
Rhaella Targaryen
Com a remoção de Nettles da série, tudo indica que House of the Dragon transferirá grande parte de sua história para Rhaella Targaryen. E, se essa interpretação estiver correta, a mudança altera profundamente não apenas o significado dos acontecimentos, mas a própria lista dos traidores de Rhaenyra.
Nos livros, o conflito entre Rhaenyra e Nettles nasce do ciúme envolvendo Daemon. Na série, essa possibilidade simplesmente não existe. Mas isso não significa que a traição tenha desaparecido. Pelo contrário. Ela pode se tornar ainda mais devastadora.
Rhaenyra confia em Rhaella. Mais do que isso, deposita nela uma das missões mais importantes de toda a guerra. Cabe à jovem levar Aegon, Viserys e os ovos de dragão para longe do conflito. Em outras palavras, ela recebe a responsabilidade pelo futuro da Casa Targaryen. Só que Rhaella nunca enxerga a missão dessa forma.

Humilhada por não possuir um dragão, sentindo-se inferior a Baela, Jace e praticamente todos ao seu redor, ela interpreta o exílio no Vale como mais uma prova de que foi deixada para trás. Mesmo quando Rhaenyra lhe explica que está confiando a ela aquilo que mais importa, os herdeiros e o futuro da dinastia, a jovem não consegue esconder a frustração. E é justamente essa mistura de impulsividade, imaturidade e ressentimento que pode acabar produzindo uma das maiores tragédias da série.
No momento decisivo, quando os príncipes precisam deixar Westeros, Rhaena aparentemente abandona sua responsabilidade para reivindicar Sheepstealer e se juntar à guerra. Do ponto de vista de Rhaenyra, é difícil imaginar uma desobediência mais grave. Afinal, não estamos falando de uma simples insubordinação. Estamos falando da segurança dos filhos e dos herdeiros da rainha.
E, segundo relatos sobre os primeiros episódios da terceira temporada, a tragédia não termina aí.
Sem controlar plenamente Sheepstealer, Rhaella participaria da Batalha da Goela e acabaria atacando inadvertidamente a frota do próprio avô. Forçado a voar mais baixo para escapar das chamas, Jacaerys Velaryon seria derrubado e morto. Enquanto isso, os dois príncipes cuja proteção lhe havia sido confiada seriam dados como mortos, com Viserys II desaparecendo nas mãos dos inimigos. Se esses acontecimentos realmente se confirmarem, é difícil imaginar um golpe mais devastador para Rhaenyra. Em uma única sequência de decisões, Rhaella contribuiria para a morte do herdeiro da rainha, para o desaparecimento de outro filho e para a destruição de parte das forças dos Pretos. E tudo isso logo no início da guerra.
É por isso que tenho dificuldade em imaginar House of the Dragon reproduzindo exatamente a ordem de execução dada a Nettles em Fogo & Sangue. Ainda assim, os trailers já sugerem consequências profundas. Baela parece profundamente revoltada, e a relação entre as filhas de Daemon e a rainha pode jamais voltar a ser a mesma.

E existe uma ironia curiosa em tudo isso.
Nos livros, Rhaella é praticamente o oposto dessa figura trágica. Enviada ao Vale para sua proteção, ela permanece afastada da guerra, testemunha o nascimento de Morning e se transforma em um símbolo de esperança quando quase todos os dragões já desapareceram. Após o conflito, torna-se extremamente popular em Porto Real, casa-se duas vezes e vive uma vida relativamente longa e tranquila, distante das intrigas que destruíram o restante da família.
House of the Dragon parece determinada a contar outra história.
Qual o resultado de todas as traições?
No fim, a maior tragédia de Rhaenyra é que alguns traidores eram fáceis de identificar. Otto Hightower, Criston Cole, Hugh Martelo, Ulf, o Branco e Alfred Broome jamais esconderam suas ambições, ressentimentos ou interesses, mas muito mais devastadoras foram as suspeitas equivocadas, os amores divididos e as lealdades colocadas à prova. Em Westeros, nem toda traição nasce do ódio. Algumas das feridas mais profundas são provocadas por pessoas que acreditavam estar fazendo a coisa certa.
O problema é que, conforme a guerra se torna mais brutal, Rhaenyra também passa a tomar decisões cada vez mais movidas pelo medo e é justamente a desconfiança que acaba produzindo algumas das rupturas mais irreparáveis de toda a guerra. Assim, de certa forma, Rhaenyra também acaba traindo a si mesma. E talvez seja justamente essa a maior tragédia da Dança dos Dragões.

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