A maior falha de Viserys não foi escolher Rhaenyra: foi nunca prepará-la para governar

Quando pensamos na Dança dos Dragões, é natural procurar um grande culpado. Otto Hightower e sua ambição, Alicent e seus ressentimentos, Daemon e sua violência, Aemond e sua impulsividade ou até a própria Rhaenyra e suas decisões equivocadas parecem candidatos óbvios. Mas House of the Dragon, especialmente agora que a série começa a explorar o que significa governar e não apenas conquistar, aponta para uma conclusão muito mais desconfortável. A verdadeira tragédia dos Targaryen talvez tenha começado justamente com o personagem que mais desejava evitá-la: Viserys I Targaryen.

O rei interpretado por Paddy Considine era, de fato, um homem bom. E foi precisamente essa bondade, quando transportada para o exercício do poder, que ajudou a preparar a destruição da própria dinastia que ele acreditava estar protegendo.

Paddy Considine sempre defendeu a ideia de que Viserys não era um mau rei por falta de humanidade, mas por excesso dela. Seu Viserys desejava ser amado, desejava preservar a família, desejava honrar a memória de Aemma Arryn e desejava cumprir a missão quase sagrada que acreditava ter herdado de Aegon, o Conquistador. Ao contrário de tantos outros Targaryen, ele nunca demonstrou prazer em exercer poder ou em impor sofrimento.

O problema é que Westeros jamais recompensou governantes que se recusavam a confrontar conflitos. Daemon compreendia isso melhor do que qualquer outro personagem. Durante toda a primeira temporada, ele acusa o irmão de ser fraco não porque lhe faltasse inteligência ou sensibilidade, mas porque lhe faltava a capacidade de tomar decisões dolorosas no momento em que elas precisavam ser tomadas. Viserys queria acreditar que a boa vontade resolveria problemas políticos. Queria acreditar que o amor familiar seria suficiente para impedir uma guerra. Queria acreditar que o respeito à sua autoridade sobreviveria à sua morte. Em todos esses pontos, ele estava errado.

A grande lição de Game of Thrones: conquistar, dominar e governar são habilidades diferentes

Uma das maiores qualidades de Game of Thrones sempre foi tratar o poder político como algo muito mais complexo do que simplesmente sentar-se em um trono. A série insistiu repetidamente na ideia de que conquistar, dominar e governar são habilidades completamente diferentes. Robert Baratheon soube conquistar os Sete Reinos e fracassou ao governá-los. Tywin Lannister jamais foi rei, mas talvez tenha sido o administrador mais eficiente de sua geração. Stannis Baratheon entendia o funcionamento do Estado, mas nunca conseguiu conquistar legitimidade emocional. Daenerys Targaryen era uma conquistadora brilhante e precisou descobrir, da maneira mais dolorosa possível, que libertar cidades não significava necessariamente saber administrá-las.

Uma das cenas mais importantes de Game of Thrones ocorre quando Bran Stark, ainda menino, demonstra irritação ao participar das audiências em Winterfell. Ele se entedia com disputas locais, reclamações de camponeses e questões administrativas aparentemente banais. O meistre Luwin então lhe explica aquilo que talvez seja a principal tese política criada por George R. R. Martin: governar é exatamente isso. Governar significa ouvir problemas repetitivos, arbitrar conflitos menores, administrar recursos limitados e assumir responsabilidades que quase nunca produzem glória ou reconhecimento. O exercício do poder é, frequentemente, enfadonho.

Daenerys também precisou aprender essa lição. Grande parte de sua trajetória em Essos é frequentemente criticada pelos espectadores justamente porque substitui batalhas e conquistas por discussões administrativas, alianças desconfortáveis e decisões impopulares. Mas essa demora tinha uma função narrativa clara: Daenerys percebe que sabe conquistar, mas não sabe governar. Por isso adia a invasão de Westeros. Antes de reivindicar o Trono de Ferro, ela tenta aprender o que significa administrar um reino. Ela fracassará depois, quando perder a capacidade de aceitar limites e frustrações. Mas, pelo menos, reconheceu que havia algo a ser aprendido.

Rhaenyra jamais teve essa oportunidade.

Viserys treinou uma herdeira, não uma rainha

Durante anos, tanto os leitores de Fire & Blood quanto os espectadores de House of the Dragon interpretaram a presença da jovem Rhaenyra no Pequeno Conselho como prova de que Viserys estava preparando sua filha para governar. Ela acompanhava reuniões, observava negociações e era apresentada à rotina do poder. O problema é que observar o poder não significa aprender a exercê-lo.

Viserys ensinou Rhaenyra a se perceber como herdeira legítima. Nunca a ensinou a administrar um reino. Nunca a colocou na posição de tomar decisões impopulares. Nunca a fez administrar recursos escassos. Nunca lhe permitiu construir uma estrutura própria de poder. Nunca consolidou sua autoridade política de forma prática. O que ele ofereceu à filha foi legitimidade simbólica, não experiência administrativa.

Essa distinção é fundamental porque ajuda a compreender uma característica central da própria Rhaenyra. Ainda na interpretação de Milly Alcock, a personagem desenvolve simultaneamente um forte senso de direito ao trono e uma profunda insegurança em relação à sua capacidade de mantê-lo. Ela acredita que o trono lhe pertence porque o pai assim determinou. Mas sabe, desde a infância, que o restante de Westeros jamais aceitou plenamente essa decisão. Sua personalidade acaba sendo construída justamente nessa tensão entre certeza e insegurança, entre direito adquirido e medo permanente de perdê-lo.

O plano de Otto Hightower e o erro fatal de Viserys

Otto Hightower compreendeu desde o início algo que Viserys jamais foi capaz de aceitar: sucessões políticas não são resolvidas por afeto, mas por poder. Seu apoio inicial a Rhaenyra nunca foi motivado por qualquer desejo de progresso ou igualdade. A princesa era apenas uma solução temporária para impedir Daemon de herdar o trono.

O plano de Otto era extremamente simples e, provavelmente, teria funcionado se Viserys fosse um governante mais pragmático. Primeiro, afastava-se Daemon da sucessão. Depois, Alicent se casaria com o rei e produziria herdeiros homens. Finalmente, a sucessão masculina seria restaurada naturalmente. A estratégia funcionou em todos os aspectos, exceto em um: Viserys se recusou a abandonar Rhaenyra.

Mas sua insistência em mantê-la como herdeira não foi acompanhada das medidas políticas necessárias para sustentar essa decisão revolucionária. Ele não renovou juramentos de fidelidade após o nascimento de Aegon. Não obrigou os grandes lordes a reafirmarem apoio à sucessora. Não construiu mecanismos institucionais para garantir a transição. Não transformou Rhaenyra em corregente. Não a treinou para governar em seu nome. Em outras palavras, desafiou séculos de tradição patriarcal sem construir nenhuma estrutura capaz de sustentar esse desafio.

O exílio de Dragonstone e o abandono do poder

A decisão de Rhaenyra de abandonar King’s Landing e retornar a Dragonstone representa um dos momentos mais importantes e menos discutidos de sua trajetória. É uma decisão completamente compreensível do ponto de vista humano. Ela estava cansada, isolada, humilhada pelos rumores sobre a legitimidade dos filhos e cada vez mais hostilizada dentro da própria corte.

Politicamente, no entanto, foi um desastre.

Ao abandonar a capital, Rhaenyra abre mão da única coisa que poderia compensar sua fragilidade sucessória: a presença constante no centro do poder. Enquanto ela se afasta, Alicent amadurece politicamente, Otto recupera influência, Larys constrói suas redes de informação e o reino aprende a funcionar sem a presença da herdeira oficial. Rhaenyra continua sendo sucessora no papel, mas deixa gradualmente de existir como figura política concreta.

Esse afastamento cria uma situação paradoxal. Quando finalmente retorna para reivindicar o trono, ela descobre que herdou algo que deixou de conhecer há muito tempo.

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Os Verdes também fracassaram em formar um governante

A grande ironia da guerra civil Targaryen é que os Verdes cometem exatamente o mesmo erro de Viserys. Nem Otto, nem Alicent, nem qualquer outro membro da corte preparou Aegon II para governar.

Aegon jamais participou seriamente da administração do reino. Nunca foi treinado para exercer autoridade. Nunca acreditou verdadeiramente que se tornaria rei. Bebia, evitava responsabilidades e se comportava como alguém que sempre acreditou que outra pessoa resolveria seus problemas.

A série deixa claro que o único filho realmente preparado para governar era Aemond. Ele estudou história, estratégia, filosofia e guerra. Dedicou sua vida à preparação para uma função que nunca imaginou ocupar. O resultado é profundamente irônico: tanto os Pretos quanto os Verdes produzem sucessores despreparados. A diferença é que os Verdes sabiam exatamente disso.

O episódio de hoje prova que Rhaenyra nunca aprendeu a governar

A chegada de Rhaenyra a King’s Landing representa o momento em que legitimidade e realidade finalmente entram em conflito. Ela conquista aquilo que acreditava lhe pertencer por direito, apenas para descobrir que governar exige habilidades que jamais teve oportunidade de desenvolver.

Larys Strong e Tyland Lannister compreendem isso perfeitamente. Ao retirar Aegon da cidade, esvaziar os cofres reais e desmontar a estrutura administrativa, eles não estão apenas tentando sobreviver à derrota. Estão construindo uma armadilha política. Rhaenyra assume uma capital sem recursos financeiros, sem estabilidade e sem condições de atender às necessidades imediatas da população.

Essa situação possui uma dimensão política extremamente sofisticada. Como acontece frequentemente em governos reais, a nova administração será responsabilizada pelas consequências acumuladas da administração anterior. Se aumentarem os impostos, Rhaenyra será odiada. Se não aumentar, será incapaz de governar. Se agir com severidade, confirmará as acusações dos inimigos. Se agir com moderação, parecerá fraca. Larys compreende algo que Viserys jamais entendeu: governantes não sobrevivem porque são amados. Sobrevivem porque conseguem administrar a inevitável perda de popularidade.

Alicent e Rhaenyra fracassam porque nenhuma delas foi preparada para exercer poder

O novo conflito entre Alicent e Rhaenyra talvez seja um dos momentos mais interessantes da série justamente porque revela que ambas continuam pensando como filhas, mães e vítimas, mas não como governantes.

Na visão de Alicent, ela cumpriu integralmente sua parte do acordo. Entregou a cidade, tentou entregar Aegon e não teve participação em sua fuga. Chega inclusive a sugerir que Rhaenyra utilize politicamente o desaparecimento do filho, já que ninguém conhece seu paradeiro e sua morte pode até ser presumida.

Na visão de Rhaenyra, Alicent a traiu. Aegon desapareceu. Aemond permanece vivo. Daeron nunca foi devidamente incluído no acordo. O reino recebido está economicamente destruído.

As duas interpretações são compreensíveis. O problema é que nenhuma das duas mulheres foi treinada para negociar como governante. Alicent pensa como mãe tentando salvar os filhos. Rhaenyra pensa como herdeira que finalmente conquistou aquilo que lhe foi prometido. Ambas continuam operando emocionalmente dentro de uma estrutura política que exige racionalidade, crueldade e cálculo.

O falso Daeron e a humilhação definitiva de Rhaenyra

A decisão de Ormund Hightower de entregar uma criança falsa no lugar de Daeron talvez seja uma das demonstrações mais brutais de quem realmente compreende o funcionamento do poder em House of the Dragon.

Daemon aceita a fraude porque sequer conhece o próprio sobrinho. Rhaenyra aceita a fraude porque precisa acreditar que ainda controla os acontecimentos. Ormund, por sua vez, demonstra compreender algo que os Targaryen parecem incapazes de aceitar: guerras são vencidas tanto pela percepção quanto pela força.

Quando Alicent percebe a farsa, a situação se torna ainda mais devastadora para Rhaenyra. Sua autoridade é novamente questionada. Sua capacidade de liderança sofre outro golpe. E Emma D’Arcy constrói uma personagem profundamente consciente dessa fragilidade. A Rhaenyra adulta não é uma mulher incompetente porque é má ou estúpida. Ela é uma governante que sabe, no fundo, que nunca foi preparada para ocupar a posição em que se encontra.

A tragédia final de Viserys

No fim, toda a tragédia da Dança dos Dragões retorna a Viserys. Ele acreditava que poderia substituir instituições por amor, estratégia por boa vontade e decisões difíceis por esperança. Queria proteger a família, preservar a profecia e evitar conflitos. Mas governar nunca permitiu esse tipo de inocência.

A maior falha de Viserys nunca foi escolher Rhaenyra como herdeira. Sua maior falha foi acreditar que bastava escolhê-la. Ele deu à filha legitimidade, mas não autoridade. Deu a ela um direito, mas não as ferramentas necessárias para defendê-lo. Deu a ela um trono, mas jamais lhe ensinou como governar um reino.

E talvez essa seja a ironia mais cruel de House of the Dragon: o homem que passou a vida tentando evitar a destruição de sua família foi justamente quem construiu todas as condições para que ela acontecesse.


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