Há dois anos, o MiscelAna já explicava quem era Daeron Targaryen, o filho esquecido de Alicent em House of the Dragon. Na época, a dúvida era se a série havia simplesmente eliminado o quarto filho de Viserys I e Alicent Hightower da adaptação. Agora, com a terceira temporada finalmente colocando o príncipe no centro da guerra, a questão mudou. Daeron não apenas entrou em cena. Ele entrou como mistério, como ameaça e, principalmente, como uma mudança radical em relação ao livro.
No episódio mais recente, Ormund Hightower engana Rhaenyra e Daemon ao apresentar um falso Daeron. O golpe funcionou por alguns minutos como surpresa dramática, mas imediatamente abriu uma série de perguntas que transformaram a cena em piada entre os fãs. Afinal, quem era aquele garoto? De onde veio uma criança com aparência Targaryen no meio da guerra? Ormund encontrou um bastardo valiriano disponível em Oldtown ou simplesmente pintou o cabelo de uma criança para fazê-la parecer um príncipe?

A troca de identidades não é uma ideia estranha ao universo de Game of Thrones. Nos livros de George R.R. Martin, Jeyne Poole, amiga de Sansa Stark, é forçada a se passar por Arya Stark e acaba casada com Ramsay Bolton em uma das tramas mais cruéis de A Dança dos Dragões. Na série da HBO, esse arco foi transferido para a própria Sansa, o que tornou a história mais chocante e deu à personagem uma trajetória mais forte dentro da adaptação. Antes disso, a própria Sansa havia se escondido por alguns episódios sob outra identidade, apresentada como sobrinha de Littlefinger e usando os cabelos escurecidos para disfarçar quem realmente era.
Em House of the Dragon, a série tenta usar uma lógica semelhante à de Daeron. Só que, desta vez, a troca não serve para esconder uma vítima. Serve para enganar os pretos. No livro, Daeron nunca é capturado por Rhaenyra e Daemon. Ele permanece em Oldtown, onde foi criado longe da corte, e só entra na guerra quando o conflito avança para o sul. Seu dragão, Tessarion, a Rainha Azul, faz dele uma das armas mais importantes dos Verdes.
A série, porém, mudou primeiro sua aparência. Quando Daeron aparece no episódio em que Ormund recebe o recado de Alicent, ele não tem o loiro-prateado tradicional dos Targaryen. Ele tem os cabelos da mãe. Essa foi a primeira grande alteração. O que parecia apenas uma escolha visual para aproximá-lo de Alicent acabou se tornando a base do golpe: se o verdadeiro Daeron não parecia um Targaryen clássico, um falso Daeron loiro poderia confundir Rhaenyra, Daemon e o público ao mesmo tempo.

Como virada de roteiro, a escolha tem um efeito duplo. De um lado, causa surpresa, instala dúvida, mostra que Ormund é mais perigoso do que parecia e prepara o caminho para a batalha que deve virar o jogo mais uma vez. De outro, reforça a fraqueza dos Pretos e a inabilidade de Rhaenyra para agir como rainha em meio à guerra. Ela e Daemon são enganados com uma facilidade desconcertante, e a cena acaba dando razão, de forma incômoda, às preocupações que Otto Hightower repetia desde o início: Rhaenyra seria inapta para governar, enquanto Daemon seria sanguinário demais para ser controlado.
O problema é que a série construiu Rhaenyra como uma mulher que sofre, hesita, tenta ser boa e carrega o peso moral de cada decisão. No livro, é ela quem aparece determinada a extinguir os homens Hightower-Targaryen. Daeron é um garoto, mas sua sobrevivência representa um risco político real. Se ele continuar vivo, pode ser usado como sucessor, símbolo e vingador. Para Rhaenyra, matar Daeron significa eliminar mais um herdeiro possível e impedir que ele venha, no futuro, vingar o avô, os tios e os irmãos. Na série, ela prefere exilá-lo na muralha (uma boa alternativa), e é Daemon que prefere usar o extermínio imediato como política.
Essa contradição até poderia ser interessante. A guerra deveria justamente empurrar Rhaenyra para decisões cada vez mais brutais. Mas a execução da série ficou torta porque o golpe de Ormund exige boa vontade demais do público. Se o falso Daeron era um bastardo Targaryen, quem era ele? Filho de quem? Como Ormund conseguiu uma criança com aparência valiriana no momento exato? A própria série já mostrou que havia descendentes ilegítimos de sangue Targaryen em Porto Real, mas Oldtown não é Porto Real. Mesmo que a resposta seja essa, ela precisaria de alguma explicação ou, ao menos, mais do que “minha mãe é uma mercadora” que ouvimos no ar. Quem é o pai?
A outra hipótese é ainda mais engraçada: Ormund teria simplesmente pintado ou descolorido o cabelo de uma criança em plena campanha militar. E foi aí que a piada explodiu. Com que tempo? Com que produto? Quem, no meio de uma guerra, conseguiu transformar uma criança qualquer em um príncipe Targaryen convincente? A cena virou meme porque parece menos uma estratégia política e mais a inauguração de um salão de beleza Hightower.

A piada fica melhor porque toca no trauma central de Rhaenyra. Se bastava pintar o cabelo para resolver problemas dinásticos, ela talvez pudesse ter poupado anos de humilhação pública levando Jace, Luke e Joffrey ao colorista certo. A imagem de Rhaenyra olhando o cabelo do falso Daeron de perto praticamente escreve o meme sozinha: era só isso? Era só pintar?
A confusão cresce ainda mais com Tessarion. Se Daemon desconfiava de Ormund, por que não mandou o suposto Daeron montar o dragão e voar com eles para Porto Real? Se o garoto fosse mesmo Daeron, Tessarion deveria obedecê-lo. Se não fosse, a farsa cairia ali mesmo. Em vez disso, Daemon vai embora e o dragão fica para trás com os Hightower, como se isso fosse um detalhe menor.
O final do episódio indica que, assim que Daemon saiu, os Hightower capturaram os valirianos que ajudavam no manejo dos dragões, ficaram com Tessarion e avançaram sobre Tumbleton. A ideia pode funcionar como virada de roteiro: Ormund não apenas enganou Daemon como ganhou tempo, preservou o verdadeiro Daeron e manteve o dragão dos Verdes. Mas, em cena, tudo pareceu conveniente demais. A ausência de uma ordem simples de Daemon para que Tessarion acompanhasse o suposto príncipe enfraquece a própria inteligência estratégica que a série ainda tenta atribuir a ele.
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No livro, Daeron é importante justamente porque surge como uma força relativamente inesperada. Filho caçula de Viserys e Alicent, irmão de Aegon, Helaena e Aemond, ele foi enviado ainda criança para Oldtown e cresceu sob a proteção da Casa Hightower. Por isso, ficou longe das intrigas iniciais de Porto Real, mas se tornou decisivo quando a guerra se espalhou para o sul. Com Tessarion, Daeron ganha fama na Batalha de Honeywine, quando sua chegada muda o destino do combate e salva o exército Hightower. A partir daí, passa a ser conhecido como Daeron, o Audaz.
É por isso que sua presença muda a guerra. Daeron não é apenas mais um filho de Alicent. Ele é o herdeiro alternativo, o príncipe criado longe da corte, o menino que pode parecer menos corrompido pelos fracassos de Aegon e pela brutalidade de Aemond. Para os Verdes, ele representa esperança. Para Rhaenyra, representa uma ameaça. Para Ormund, agora na série, ele parece representar algo ainda maior: uma chance de reorganizar o jogo sem depender dos erros cometidos em Porto Real.

O destino de Daeron nos livros também é marcado pela confusão. Ele morre durante a Segunda Batalha de Tumbleton, mas as versões sobre sua morte variam. Alguns relatos dizem que ele foi morto quando sua tenda pegou fogo. Outros afirmam que morreu em meio ao caos do ataque noturno. Como Fogo & Sangue é construído como uma história cheia de fontes contraditórias, Daeron nunca recebe uma morte inteiramente clara ou heroica. Ele entra na guerra como promessa e sai dela como mais uma vítima do colapso Targaryen.
A série, no entanto, parece interessada em usar Daeron antes de tudo como ferramenta de manipulação. Ao mudar sua aparência, esconder sua identidade e criar um falso príncipe, House of the Dragon transforma o personagem em peça de um golpe antes mesmo de explorá-lo como guerreiro. Isso torna Ormund mais perigoso, sem dúvida. Mas também cria um problema: quanto mais inteligente Ormund parece, mais distraídos Rhaenyra e Daemon precisam parecer para que o plano funcione.
No fim, o falso Daeron resume o risco das mudanças recentes da adaptação. A ideia é boa o suficiente para causar surpresa e reorganizar as expectativas de quem leu o livro. Também ajuda a preparar Tumbleton e a colocar Ormund em posição de ameaça real. Mas a costura dramática exige demais da suspensão de descrença. Rhaenyra parece vulnerável demais. Daemon parece descuidado demais. Tessarion fica para trás de forma conveniente demais. E Daeron, que finalmente deveria entrar na história com o peso prometido, acaba cercado por uma pergunta involuntariamente cômica.
Ormund Hightower enganou Rhaenyra e Daemon com estratégia política ou com descolorante? Talvez essa não fosse a dúvida que House of the Dragon queria deixar. Mas foi ela que fez Daeron, enfim, virar assunto.
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