Por que Ser Corlys Velaryon rompe com Rhaenyra em House of the Dragon?

A discussão entre Ser Corlys Velaryon e Rhaenyra no terceiro episódio da terceira temporada rapidamente se tornou um dos assuntos mais comentados entre os fãs de House of the Dragon. Nas redes sociais, especialmente no X, muita gente comemorou o fato de o Lorde das Marés finalmente ter dito em voz alta aquilo que Westeros sempre soube: Jacaerys, Lucerys e Joffrey eram bastardos.

Para esses espectadores, Corlys apenas cobrou da rainha uma dívida antiga, depois de passar anos protegendo um segredo que não era seu. Outros enxergaram justamente o contrário: uma enorme hipocrisia de alguém que ajudou a construir a mentira enquanto ela servia aos próprios interesses. A verdade é que ambos os lados levantam argumentos válidos. Mas a série acerta justamente porque transforma uma ruptura que, no livro, acontece de maneira relativamente abrupta em um conflito construído ao longo de três temporadas.

Em Fire & Blood, Ser Corlys permanece ao lado de Rhaenyra durante quase toda a Dança dos Dragões. O rompimento entre os dois só acontece perto do fim da guerra, quando a rainha, devastada pelas mortes de Rhaenys e Jacaerys e traumatizada pela traição de Hugh Hammer e Ulf White, passa a desconfiar também de Addam e Alyn Velaryon. Convencida de que seus próprios aliados podem voltar-se contra ela, ordena a prisão de Addam. Corlys implora para que a rainha reconsidere, lembra que ambos sempre lhe foram leais e se recusa a abandoná-los. Como resposta, Rhaenyra manda prender a própria Mão do Rei. É esse o verdadeiro rompimento entre os dois no livro. Libertado mais tarde por Larys Strong, Corlys acaba ajudando Aegon II a recuperar o controle da guerra.

Na televisão, porém, esse desenvolvimento dificilmente teria o mesmo impacto. A Rhaenyra construída por House of the Dragon é muito diferente daquela descrita por George R. R. Martin. Ela hesita, busca constantemente o caminho moralmente correto e evita decisões precipitadas. Ver essa personagem prender Corlys apenas por suspeitar de Addam provavelmente pareceria uma mudança brusca de personalidade. A série precisava preparar essa ruptura antes. E faz isso de maneira bastante inteligente.

Isso funciona porque, ao contrário do livro, House of the Dragon jamais construiu Corlys como um aliado de Rhaenyra. Ele sempre foi, antes de tudo, um aliado da Casa Velaryon.

Desde a primeira temporada, Corlys nunca demonstra qualquer afeto especial pela princesa. Ainda adolescente, quando Rhaenyra começa a participar das reuniões do Pequeno Conselho, ele praticamente a ignora. Suas discussões são sempre com Viserys. Seu interesse nunca foi a herdeira. Era o trono.

Antes mesmo de Laenor entrar na história, Corlys tentou casar sua filha Laena, então com apenas doze anos, com Viserys, um homem quase três décadas mais velho. Não era uma decisão motivada por carinho ou preocupação com a menina. Era mais uma jogada para colocar uma Velaryon no Trono de Ferro. Quando Viserys recusou a proposta e escolheu Alicent Hightower, Corlys rompeu com o rei por anos. Só voltou a negociar quando surgiu uma nova oportunidade: casar Laenor com Rhaenyra.

Também não foi um gesto de confiança: foi outro excelente negócio político. Corlys sabia que Laenor era gay. Sabia que aquele casamento dificilmente produziria herdeiros biológicos. Ainda assim, aceitou a união porque ela mantinha viva sua grande ambição: colocar o nome Velaryon na sucessão da Coroa.

O nascimento de Jacaerys, Lucerys e Joffrey resolvia, ao menos politicamente, um problema enorme. Não apenas garantia herdeiros para Rhaenyra, como preservava a aparência de um casamento bem-sucedido para seu próprio filho. Enquanto aqueles meninos fossem oficialmente Velaryon, ninguém precisava discutir publicamente a sexualidade de Laenor ou admitir que o casamento fracassara em seu principal objetivo dinástico.

Corlys nunca foi enganado e participou conscientemente daquela narrativa.

Nem mesmo quando a guerra começa, a série transforma essa relação em amizade. Diferentemente de Fire & Blood, em que Corlys e Rhaenys imediatamente apoiam a reivindicação de Rhaenyra, a adaptação mostra os dois hesitando. Eles cogitam permanecer fora do conflito e avaliam cuidadosamente se vale a pena entrar na guerra. É Rhaenys quem passa a acreditar em Rhaenyra, identificando nela uma mulher que enfrenta os mesmos obstáculos que ela própria enfrentou ao perder a sucessão. É Rhaenys quem convence Corlys. A confiança nunca parte dele.

Mesmo assim, Corlys reconhece os três meninos como netos durante toda a vida. Nomeia Lucerys como herdeiro de Driftmark, prepara Jacaerys para assumir responsabilidades e jamais questiona publicamente sua legitimidade enquanto isso favorece os Velaryon.

SPOILERS

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É justamente por isso que a discussão do terceiro episódio funciona tão bem: não estamos vendo uma amizade terminar, mas uma aliança política finalmente chegar ao limite. E o estopim da cena é importante. Corlys não confronta Rhaenyra apenas porque, de repente, resolveu dizer a verdade sobre Jacaerys, Lucerys e Joffrey. Ele chega até a rainha querendo que Addam e Alyn, seus próprios filhos bastardos, sejam reconhecidos e legitimados como Velaryon. Rhaenyra se recusa porque a guerra dos Pretos depende, em grande parte, da defesa da legitimidade de sua própria linhagem. Reconhecer oficialmente os bastardos de Corlys naquele momento abriria uma contradição perigosa: a rainha estaria usando a Coroa para legitimar os filhos ilegítimos de sua Mão ao mesmo tempo em que exigiria que o reino aceitasse seus próprios filhos como herdeiros incontestáveis.

Quando ela nega o pedido, a ferida que Corlys fingiu controlar durante anos finalmente se abre. É aí que a hipocrisia se torna mais evidente. Corlys passou décadas sustentando a legitimidade dos filhos de Rhaenyra porque aquela ficção servia à ambição da Casa Velaryon. Mas, quando pede que a rainha faça por seus filhos bastardos uma concessão parecida, e não recebe o que deseja, transforma a velha mentira em acusação. Não é um homem defendendo um princípio. É um homem furioso porque a exceção que antes lhe servia agora não é concedida

Grande parte da internet defende que ele apenas cobrou de Rhaenyra o fato de ter escondido a verdadeira origem de seus filhos durante anos. Essa leitura, porém, ignora um detalhe fundamental: Corlys nunca sustentou aquela mentira para protegê-la. Sustentou porque ela protegia seu próprio legado.

Durante décadas, o Lorde das Marés apostou tudo em um projeto político que dependia daqueles três meninos. Ele aceitou aquela ficção porque ela mantinha a Casa Velaryon no centro da sucessão. Agora, depois de perder quase tudo, age como se tivesse sido apenas uma vítima. Há outra ironia que torna sua explosão ainda mais amarga. Jacaerys morreu tentando salvá-lo.

Na Batalha da Goela, o príncipe contrariou a estratégia definida pela própria mãe para proteger Corlys e sua frota. A decisão lhe custou a vida. Ouvir justamente o homem que ele tentou salvar reduzir toda a sua existência à palavra “bastardo” é talvez o momento mais cruel da cena.

As redes sociais também levantaram outra comparação interessante. Muitos lembraram que Corlys condena Rhaenyra por ter filhos com outro homem, embora ele próprio tenha mantido uma segunda família durante anos sem que Rhaenys soubesse. As situações não são exatamente iguais.

Rhaenyra e Laenor viviam um casamento político sustentado por um entendimento entre ambos. Corlys simplesmente traiu a esposa. Ainda assim, a comparação reforça um aspecto importante: sua indignação moral aparece apenas quando seus interesses deixam de coincidir com os da rainha.

Outro detalhe chamou a atenção dos fãs. Muita gente brincou que Corlys só teve coragem de levantar a voz porque Daemon não estava presente. A observação pode soar como piada, mas faz sentido. Corlys conhece Daemon há décadas e sabe exatamente do que ele é capaz. Basta lembrar que Vaemond Velaryon perdeu literalmente a cabeça depois de fazer a mesma acusação contra os filhos de Rhaenyra. É difícil imaginar Corlys repetindo aquele discurso diante do príncipe.

Ainda assim, o maior problema da cena talvez não seja Corlys. É Rhaenyra.

Ela não lembra que Vaemond morreu pela mesma acusação. Não lembra que Corlys sustentou aquela mentira durante décadas porque ela também servia aos interesses da Casa Velaryon. Não lembra que Jacaerys morreu tentando salvar justamente o homem que agora o reduz à condição de bastardo. Nem sequer reage ao fato de sua própria Mão do Rei erguer a voz para sua rainha diante de testemunhas, algo que, em Westeros, dificilmente ficaria sem resposta.

Mais uma vez, House of the Dragon transforma Rhaenyra em uma personagem que apenas absorve os golpes.

No fim, a série melhora em relação a Fire & Blood. Ao antecipar o desgaste entre Corlys e Rhaenyra, torna muito mais convincente a traição que ainda acontecerá e transforma uma mudança relativamente brusca do livro em consequência natural de uma relação que nunca foi construída sobre confiança.

Mas faz isso repetindo um problema que acompanha a adaptação desde a primeira temporada. Para preservar Rhaenyra como uma mulher essencialmente boa, a série frequentemente abre mão de sua autoridade como rainha. Corlys sai da sala impondo sua versão dos fatos. Rhaenyra saiu sem defender nem seus filhos mortos, nem sua legitimidade, nem o próprio trono. E talvez seja justamente isso que mais enfraqueça a protagonista da adaptação.


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