No futebol, uma substituição costuma acontecer dentro das quatro linhas. Na Copa do Mundo de 2026, porém, a troca que mudaria a história aconteceu longe dos jogadores, em uma cabine de som. É uma das lendas que vemos onde o “acaso” é abraçado pela torcida e transforma, para sempre, o significado do momento e de uma canção.
A música programada para vitória inglesa era outra
Quando a Inglaterra venceu a Croácia por 4 a 2 na estreia do torneio, no dia 17 de junho de 2026, em Dallas, milhões de pessoas assistiam à comemoração dos jogadores diante da torcida. O que ninguém viu foi que, naquele mesmo instante, outra decisão estava sendo tomada.
A música prevista para embalar a vitória seria Sweet Caroline, de Neil Diamond, mas a que acabou entrando em campo foi outra. Bastaram alguns acordes para que um clássico lançado pelo Oasis em 1995 deixasse de ser apenas mais uma faixa da playlist da FIFA e se transformasse no novo hino não oficial da seleção inglesa: Wonderwall.
Após o apito final, enquanto a música ecoava pelas arquibancadas, Harry Kane, Jude Bellingham, Declan Rice e o restante da equipe se uniram às milhares de pessoas que passaram a cantar juntas o famoso refrão: Because maybe, You’re gonna be the one that saves me, And after all, You’re my wonderwall. Os celulares foram erguidos. Os vídeos tomaram conta das redes sociais. Sem que ninguém anunciasse oficialmente, um novo ritual havia começado.
A partir dali, a cena se repetiria após cada vitória inglesa. Contra a República Democrática do Congo, contra o México e agora, contra a Noruega. Em vez de deixar rapidamente o gramado, os atletas passaram a permanecer diante da arquibancada para cantar junto com a torcida justamente essa canção.
Harry Kane chegou a brincar que terminou algumas comemorações mais rouco do que depois dos próprios jogos. Liam Gallagher já disse que vai pessoalmente cantar para a seleção se ganhar a Copa. (Depois do mega-sucesso da turnê mundial do Oasis, ter um show deles no final da Copa caso a Inglaterra ganhe seria lendário.)

As playlists da FIFA e a decisão de último momento
A cena original pareceu espontânea porque, de certa forma, foi. Mas ela também revela uma mudança silenciosa na maneira como o futebol moderno é produzido. Hoje, uma Copa do Mundo não depende apenas do que acontece dentro de campo. Ela também possui uma direção musical.
Pouca gente sabe, mas a FIFA trabalha durante meses na construção da experiência sonora do torneio. As seleções enviam sugestões de músicas que representam sua identidade; há playlists específicas para entrada em campo, aquecimento, comemorações, intervalo e encerramento das partidas, e uma equipe de entretenimento coordena tudo o que será ouvido por dezenas de milhares de pessoas dentro do estádio. Ao todo, a biblioteca musical da Copa reúne centenas de faixas cuidadosamente organizadas para diferentes momentos do espetáculo.
Foi dentro dessa estrutura que nasceu a história de Wonderwall.
Naquela noite em Dallas, a programação previa que, depois da vitória inglesa, o sistema de som seguisse a sequência tradicional preparada para a seleção. Primeiro, “Three Lions”, o eterno “Football’s Coming Home”. Depois, Sweet Caroline, música que acompanhou a campanha da Inglaterra na Euro 2020 e acabou se tornando o grande hino emocional da geração de Gareth Southgate.
Mas o roteiro mudou.
Enquanto “Three Lions” ainda tocava pelos alto-falantes do estádio, Ryland Baptist, responsável pela direção musical dos estádios da FIFA, decidiu alterar a sequência prevista. Segundo relatos publicados após a partida, ele acreditava que “Sweet Caroline” já carregava fortemente a imagem da antiga geração inglesa e procurava uma música que representasse melhor aquele novo elenco. Houve até uma rápida discussão sobre “Hey Jude”, dos Beatles, descartada por parecer uma referência direta demais a Jude Bellingham. A escolha acabou recaindo sobre Wonderwall, impulsionada também pelo enorme interesse mundial na turnê de reencontro do Oasis.
Quem executou a mudança foi Jesus “DJ Chuy” Salazar, o DJ responsável pelas partidas realizadas em Dallas. Como acontece em grandes eventos esportivos americanos, ele não estava ali apenas para apertar o play. Seu trabalho consiste em acompanhar o roteiro musical da FIFA, adaptar a programação ao ritmo da partida e executar, quando necessário, mudanças determinadas pela direção de entretenimento do torneio.
A troca parecia pequena.
Não era.
Assim que os primeiros acordes de Wonderwall começaram a ecoar pelo estádio, Harry Kane começou a cantar. Jude Bellingham também. Em segundos, mais de sessenta mil pessoas entoavam o refrão juntas. Os celulares apareceram, os vídeos invadiram as redes sociais e uma música de trinta anos ganhou uma nova vida.
Ninguém havia planejado aquilo.

Quem determina o hino é a torcida
A força daquele momento ficou evidente já nos dias seguintes. A cada nova vitória inglesa, Wonderwall voltava a tocar. Jogadores permaneciam diante dos torcedores, repetindo o ritual que havia nascido quase por acaso na estreia.
Depois da classificação sobre o México, as reproduções da música cresceram mais de 300% no Reino Unido em apenas uma hora. Poucos dias depois, o clássico do Oasis voltava às paradas de streaming quase três décadas após seu lançamento.Em tempos de algoritmos e Inteligência Artificial liderando decisões, a emoção se revela o maior diferencial. O futebol moderno pode programar luzes, telões, playlists e efeitos especiais. Pode contratar diretores musicais, DJs e especialistas em entretenimento para pensar cada segundo da experiência do torcedor, mas hinos não são escolhidos: são adotados.
Foi assim com You’ll Never Walk Alone, que nasceu na Broadway antes de encontrar o Liverpool. Foi assim com Seven Nation Army, transformada em canto de arquibancada pelos italianos. Foi assim com Sweet Caroline, que acabou simbolizando a Inglaterra na Euro 2020. Agora foi a vez de Wonderwall.
Curiosamente, a música não substituiu apenas outra faixa na playlist daquela noite. Ela substituiu um símbolo inteiro. Bastaram quatro jogos da Copa do Mundo para ressignificar um clássico dos anos 90.
No fim das contas, talvez essa seja a melhor definição do que aconteceu em Dallas: o DJ fez uma substituição, mas quem realmente mudou o jogo foi a torcida.
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